26 setembro 2005

Vocação e liberdade

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.

O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis -- como a linguagem e as leis escritas e não escritas --, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.




23 setembro 2005

Os vencidos da vida

Uma das difíceis questões, que está na raiz de muitos mal-entendidos, é saber o que é ser vencedor ou derrotado na vida.

Uns acreditam que ser vencedor na vida é possuir muito dinheiro; outros, ter vida tranqüila ainda que sem muito dinheiro; ainda outros, ter firmes e sólidas amizades com as quais seja possível compartilhar reflexões a respeito da vida e do que a ultrapassa. Com ênfase maior ou menor numa dessas posições, distribuem-se as demais opiniões.

Esta questão não é nova e leva sempre à afirmativa de que a realizaçãona vida dá-se quando se respeitam tanto o indivíduo, quanto seu acesso aos bens e serviços que garantam sua existência material. Ou seja, a realização na vida nem é dependente, nem alheia ao dinheiro; não está sob a dependência exclusiva das preferências subjetivas da pessoa, mas também não pode excluí-las. Uma vida realizada é a combinação de todas essas coisas, já que o ser e o ter só se separam na mente e não na realidade concreta do homem.

Se há alguém que muito bem tratou desta questão e a ela forneceu resposta típica de sábio, foi Eça de Queiroz, escritor português nascido em 1845. Ele e 10 amigos fundaram em Coimbra, Portugal, no dia 26 de março de 1889, a sociedade “Os Vencidos da Vida”, sujeitos que segundo Eça “...oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. 11 sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns dos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de Reais vencidos da vida ou Vencidos da vida real ou nacional; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem ações; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras “tão anônimas quanto dedicadas”; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos onze do Braganza [hotel no qual o grupo costumava reunir-se], como na ordem das coisas heróicas se fala dos doze de Inglaterra.”

A finalidade deste grupo era, “...destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares.”
Eça prossegue:

“De resto, o sussurro atônito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho, não é o grupo dos Vencidos – o que é estranho, é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções dum escândalo histórico, o delírio de 11 sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”

O fim declarado dessa sociedade era um: tomar sopas e criticar governo e governos e o que mais vier à baila. Seu fim verdadeiro era outro: dar exemplo moral às gerações futuras. E tal sociedade causou escândalo -- escândalo do mesmo tipo do que despertaria alguém que, reunindo empresários e intelectuais de peso para discutir soluções necessárias e adequadas para todo o país, alegasse estar fazendo isso sem pretender benefícios políticos, econômicos, sociais mas apenas contribuir para a melhoria de nosso mundo para as gerações futuras.

Quem, pois, são os vencedores ou vencidos da vida?

Em resposta à crítica de Pinheiro Chagas, jornalista e escritor, à designação de “Vencidos” no nome da sociedade, já que se tratavam de figuras eminentes da sociedade da época, Eça de Queiroz escreveu um artigo que se tornaria uma das obras primas da literatura portuguesa, ao qual deu o título de “Os vencidos da vida”. Nele consta a resposta clara a tão instigante questão.
Escreveu:

“O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã, é que se chamem Vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflita que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma fagorina e a tesoura para tosquear, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.” [O grifo é meu].

Que o leitor faça a experiência: julgue a própria vida à luz deste critério de vitória na vida. Em resposta, verá diante dos próprios olhos os motivos que levam a gostarem de você os que sinceramente gostam. Perceberá quão forte foi o chamamento de sua vocação e o quanto o atendeu ou não. Perceberá que a medida de sua realização é a medida do quanto realizou, no prosseguimento de sua vida, o que sua vocação o convidava a fazê-lo e hoje lhe constitui motivo de alegria ou de tristeza, conforme tenha organizado sua vida em torno dela ou não.

18 setembro 2005

A vocação à música

- “A música é serva da geometria”, explica Aristóteles. “A arte dos sons”é sua definição.
A arte lida com presenças. O artista, fazendo uso do meio material ou não-material de sua escolha, faz com que o público perceba algum tipo de presença. Este algo que o artista torna presente não é perceptívelpelos sentidos físicos, caso contrário os animais também o perceberiam.Os sentidos externos percebem apenas o meio de que o artista se utiliza; o conteúdo, a arte ali embutida, a presença a ser transmitida: só a inteligência do homem é capaz de percebê-la. O artista povoa o mundo do homem com presenças; coloca lá o que estava ausente e em muitos casos ficaria ausente para sempre, como quando vejo a imagem pintada de um ocaso do sol em terras que nunca fui nem nunca irei.
O músico, artista que é, cria na mente do ouvinte uma presença, a presença de um momento que reúne tanto elementos fíxos e aprendidos quanto outros, situacionais, onde ele age ou padece alguma ação. A chave explicativa de Aristóteles permite compreendê-lo.
A geometria é a ciência da demarcação do espaço.
Ajo a modo de geômetra quando, chegando num lugar, demarco mentalmente o espaço, como quando volto à minha terra natal: vejo um morro, um campanário que se destaca no cume da igreja, a chácara com árvores de copas exuberantes, o riacho, e a leste, norte, sul ou oeste, a casa onde nasci. Caso simplesmente esteja no meio do mato, descubro a direção de nascimento do sol, aponto-lhe a mão direita e a direção leste me é revelada; imediatamente fico sabendo que à esquerda está o oeste, à frente o norte e às minhas costas, a direção sul. É conduta simples, intuitiva, que qualquer um faz sem pensar.
Não posso mudar as cores que percebo, nem a figura dos prédios, nem as dimensões do riacho, pois não posso alterar o que me é dado pela visão –e é com isto que a geometria lida, com o que vejo. Só posso mudar o que vejo caso feche os olhos e permita à minha mente trabalhar sobre as imagens-representações do que vi e que estão retidas na minha memória. De olho aberto, nada posso mudar, e aí está o limite da geometria, que lida com informações visuais.
A música, sendo serva da geometria, também lida com paisagens, com figuras, com prédios, bosques e tudo o mais que nelas haja. Porém, tais paisagens não são dadas aos sentidos do ouvinte mas construídas por ele em resultado do influxo dos sons que sua audição capta. Se ouço algo como a suite orquestral de Bach, não consigo imaginar pessoas se agredindo; se ouço a interpretação de Jimmi Hendrix do hino nacional americano, não consigo deixar de imaginar pessoas se matando. E isto é mesmo assim, mesmo que o intervalo de tempo entre a audição de uma ou outra dessas músicas seja curto. A música me faz ir do céu ao inferno sem que eu saia do lugar.
Mas o céu ou inferno, quando os evoco sob o influxo de músicas,imagino-os como paisagens, onde ocorre alguma ação, a qual pratico ou padeço. Contudo, o céu ou inferno que imagino não é o mesmo que você ou outra pessoa imaginam, já que os construo em minha mente com os elementos que a mim e só a mim pertencem. E nisto difere a música da geometria. A geometria é atividade da mente a partir da visão, passiva em relação aos dados que causam impacto nela; a música é atividade damente a partir da audição, da “visão interior” do homem que, no recesso de sua mente, é ativa e criadora – porque utiliza-se de elementos exclusivamente pertencentes ao sujeito. Quando, ouvindo aquelas suites de Bach, imagino-me caminhando em direção a uma montanha e em seu topo vejo um imponente castelo, este castelo possui matéria, pois castelos são feitos de matéria. Só que esta matéria é a que lhe dou e não aquela que algum europeu conhecedor de castelos sabe quais são. Por isso o“meu” castelo nunca será totalmente igual a nenhum outro que exista.
O ouvinte é ativo na criação das paisagens e situações que a música o estimula a criar. Dependendo das cadências e modulações da música, ele pode criar paisagem compatível com todas as horas do dia e da noite. Ela pode entusiasmá-lo a ponto de fazê-lo imaginar-se acordando e selevantando com o sol, ou fazê-lo imaginar-se sob sol a pino, ou então nos momentos em que irá se preparar para encontrar-se com a amada ou com o momento em que a única coisa que poderá fazer é com ela sonhar.
As paisagens que a música estimula a criar são as que combinam com as diversas horas do dia ou da noite. A beleza ou maior exuberância da paisagem, com todo o dinamismo que ela comporta, dependerá exclusivamente da qualidade da imaginação do ouvinte. Quando ouço as canções infantis que cantava na infância, arranjadas por Villa Lobos, percebo que o que eu nelas enxergava não foi o mesmo que ele enxergou.
Por isso, quando alguém não gosta desta ou daquela música, deste ou daquele tipo de música, por certo é porque não gosta do tipo de paisagem que ela induz sua mente criar.
A vocação à música é portanto o intransmissível dom para agir sobre a mente do ouvinte, a partir da audição, e fazê-la ativamente criar paisagens, compostas com elementos da sua exclusiva realidade interior.

17 setembro 2005

O impacto da vocação

A vocação cria as profissões e as ciências. As profissões e as ciências por sua vez são aspectos da inteligência do homem em ação. São expressões depuradas, a ciência mais do que a profissão, de operações particulares da inteligência. Por isso são seletivas, não admitindo pertencer-lhes toda e qualquer pessoa, todo e qualquer tipo de inteligência.

Se as profissões são todas, sem exceção, práticas, as ciências não. Elas são ou práticas ou teóricas. Por exemplo, a medicina é uma ciência eminentemente prática; a física, fundamentalmente teórica, assim com a matemática, que lhe serve de instrumento.

As ciências práticas valorizam, no seu desenvolvimento, os dados dos sentidos. Daí a imensa compatibilidade das novas tecnologias de observação com a medicina, onde a clínica vai cedendo cada vez mais espaço ao instrumento. As teóricas valorizam o raciocínio, a capacidade do cientista matematizar e criar algoritmos ao mesmo tempo simples e abrangentes. Einsten exemplifica isto, ao expor o seu pensamento sob a fórmula E=mc2. Ainda que sejam necessários árduos estudos, durante vários anos, para compreender o sentido e valor desta fórmula, ela é simples e abrangente.

Analisando os fundamentos de determinada ciência, levando em conta a posição que ocupa entre os extremos – se eminentemente prática ou se puramente teórica – podemos identificar que operações da inteligência ela exige mais intensamente. Assim, é visível que a medicina se funda em provas materiais. A operação da inteligência que tem por função apresentar o dado à consciência é a intuição ou percepção. Logo, a medicina pode ser dita fundamentalmente baseada no caráter intuitivo (ou percepitivo) da inteligência. O mesmo não se pode dizer da Física. Sendo o seu objeto a estrutura dos entes físicos, e não sendo possível vê-los, só é possível deduzí-los. A operação da inteligência responsável pela dedução é a razão. A ciência (ou arte) da guerra ocupa uma posição intermédia, isto é, não se crava exclusivamente na observação nem tão somente na dedução, mas principalmente na estimativa. Quando um chefe militar diz “estimo que tal governo reagirá desta ou daquela maneira ao nosso ataque”, está combinando os precedentes que observou com os raciocínios dedutivos de que é capaz; ou seja, está estimando os dados, o que é papel da estimativa cumprir.

Uma vez compreendida a inteligência própria da ciência, torna-se possível perceber tanto a força de seu benefício como as dificuldades que resultarão do seu predomínio sobre áreas mais amplas da vida do homem.

Um caso digno de nota a respeito deste tema é a dificuldade que hoje confronta grande número de sociedades: se e até que ponto o homem é ou pode estar sendo tratado como meio e não como fim pela que parece ser a “ciência do século XXI”, a Engenharia Genética.

Sem pretender discutir aqui este assunto, um dado importante à discussão é a distinção que existe entre material e objeto da ciência.
O material de que esta ciência faz uso é tomado da Biologia; o objeto, da Física.

A vocação à Biologia é diferente da vocação à Física, na medida em que a primeira é fundamentalmente intuitiva, isto é, procede baseada nas informações dos sentidos; a segunda, procede baseada na articulação de hipóteses com a premissa de base, ou seja, ela é fundamente raciocinativa (a operação do raciocínio não presume a presença atual do objeto, mas apenas de seus esquemas puramente lógicos).

A Engenharia Genética é uma ciência nova, criada por físicos.

As origens desta ciência, conheci-a num dos módulos de Psicologia Social, durante meus primeiros anos de faculdade. Os mais de vinte anos passados misturaram em minha mente informações lidas e ouvidas. As lidas foram principalmente os ensaios contidos no livro “Biologia Social”, de Bruce Wallace, (Ed. da Universidade de São Paulo). ou seus próprios ou adaptações feitas com finalidades pedagógicas, relativos a temas como genética, evolução, raça e biologia das radiações; além destes, textos também de Niels Bohr, físico. As ouvidas foram as que circulavam na época pela boca de professores e palestrantes convidados. Estávamos na década de 80 e esses temas em alta.
Um exemplo claro das mudanças havidas no espaço de algumas décadas é a expressão engenharia genética (com letra minúscula e em modo itálico): era uma, dentre outras, técnica de trabalho do biólogo molecular e sua finalidade estrita era o desenvolvimento de curas de doenças genéticas. Hoje, dizemos Engenharia Genética, com letra maiúscula e sem itálico, significando uma ciência pronta, completa, com objetivos muito mais amplos do que a cura de doenças genéticas – hoje diríamos “cura de doenças genéticas também”.

Essa mudança se processou a partir da segunda metade do séc. XX, quando foi tomando corpo a crença de um físico, Niels Bohr, de que “um princípio de complementação, talvez semelhante àquele necessário para a compreensão da mecânica dos quanta, seria a chave para a verdadeira compreensão da biologia”, nas palavras de Wallace (p.6). Ou seja, assim que passasse a ser aplicado diretamente o método da Física ao material fornecido pela Biologia, esta se tornaria verdadeiramente conhecida.

O grande cientista Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do Nobel de Física em 1922, foi quem levou de Berlim para os Estados Unidos a notícia da descoberta da fissão nuclear e atuou como um dos assessores no laboratório da bomba atômica em Los Alamos.
Ele, como outros físicos, responsáveis pelo desenvolvimento desta nova tecnologia, ficaram profundamente abalados com os resultados de sua aplicação à guerra. Em razão disso, vários cientistas deixaram a Física e migraram para a Biologia, buscando encontrar meios capazes de reverter os efeitos nocivos da radiação sobre os seres vivos, em particular, sobre os seres humanos. O resultado disto foi a transformação da técnica numa ciência, da engenharia genética na Engenharia Genética.

O que chama a atenção nesta ciência é o fato de ser uma aplicação praticamente direta dos métodos da Física não a um novo objeto, mas a um novo material. Se o material de que a Física fez e faz uso é inanimado, o material de que esta nova ciência faz uso é algo vivo. Porém, ela “enxerga” neste material o mesmo que a Física enxergaria: a sua constituição física.

O objeto da Engenharia Genética é a constituição física do material de que o ser vivo é composto. Mesmo que o material de onde surge o homem seja o próprio homem, a natureza mesma desta ciência a torna indiferente a este dado, seja ele fato ou não. A noção de pessoa escapa dos limites da Física, assim como da sua ciência-filha, a Engenharia Genética.

Do acerto ou erro da subordinação das leis que nós homens criarmos a respeito do com que é ou não permitido experimentar, dentro do campo desta ciência, poderá depender significativa parte do futuro da humanidade neste século XXI e quem sabe nos vindouros.

As questões que resultam do crescimento desta ciência são um exemplo forte e atual do impacto da vocação sobre a vida dos homens.

03 setembro 2005

As catástrofes naturais, as humanas, e as vocações

Vi Winston Marsalis, trumpetista, apresentando-se para ajudar a população de New Orleans, terra do jazz, completamente inundada devido ao furacão Katrina.
As boas recordações que as cenas de sua apresentação me provocaram cederam lugar a uma pergunta que não mais me deixou: que tipo de vocação é valorizada pelo povo acostumado a enfrentar catástrofes naturais e pelo acostumado a enfrentar catástrofes humanas?

A resposta que me parece imediata é: quando o adubo que nutre as vocações é a luta contra catástrofe natural, o povo admira e valoriza as vocações que geram indivíduos capazes de resolver problemas reais e concretos; quando a experiência do povo é do padecimento por catástrofes humanas, o povo valoriza as vocações que geram sujeitos enrolões, histriões, falastrões, o que parece ser o caso de nós brasileiros. Pois parecemos acreditar que mais vale ser esperto e enrolão do que bom médico, bom engenheiro, bom alguma coisa.

Tais diferenças me chamaram a atenção de maneira muito aguda nos japoneses, com que convivo.O japonês é um povo que viveu grande parte de sua história tendo de reconstruir tudo, já que o Japão é um conjunto de ilhas que volta e meia balançam e jogam as construções no chão e daí surgiu um povo que sabe quanto custa produzir e vender coisas.

Os povos europeus, bem como os americanos do norte, vivem a realidade de que há épocas do ano em que não poderão nem plantar, nem colher, nem caçar. Aí talvez esteja a razão porque os da terra do jazz certamente conseguirão reconstruir sua cidade e suas vidas mais rápido do que nós brasileiros seríamos capazes. Nunca vivemos, por obra e graça da natureza, a terrível experiência de perder absolutamente tudo, de vermos a cidade em que vivemos totalmente inviabilizada. Algo assim já aconteceu numa ou noutra cidade do Brasil, mas não tinha ninguém lá – quando se criaram as grandes barragens das grandes usinas hidrelétricas. Se isto pode ser chamado de catástrofe, foi catástrofe humana, que parece não excitar o surgimento de vocações científicas e pedagógicas tanto quanto Katrinas e tempestades de neve.

Toda semana analiso dezenas de respostas a um questinário vocacional de minha elaboração, cuja primeira pergunta é “Por que gostam de você?”(*) e em muitos casos fico completamente persuadido que estou cara-a-cara com jovens capazes de adquirir uma cultura superior que o habilite ao exercício de importantes funções administrativas, científicas, e outras, tudo dependendo de que ao longo de suas vidas pessoas ou instituições valorizem suas vocações.

Se ao ver Winston Marsalis, exímio trumpetista, tocando como seus avós e bisavós tocavam – com técnica não européia –, em sinal de respeito a eles, e movido pelo desejo de ajudar seus compatriotas de New Orleans, meu coração se encheu de admiração, no momento seguinte senti-o encher-se de apreensão. É que em seguida vi um um senador petista, vestido num terno caro e exibindo ar sério, propondo mudança na lei de financiamento de campanhas eleitorais, como se a ausência de lei positiva, isto é, escrita e jurada, fosse a a causa da tão desavergonhada conduta de seu partido. Age como criança que na manhã do dia seguinte reclama com sua mãe não a ter obrigado a fazer a lição de casa na noite anterior, ainda que a mãe explicasse “É que você estava tão cansado, meu filho, que nem conseguia ficar de olho aberto!”. Homem pedindo para si e seus pares o que convém a crianças.

Uma coisa me parece certa: as vocações que vicejam e são valorizadas entre os povos cujo sofrimento resulta de evento originado da temível e incontrolada natureza são diferentes das que entre nós surgem e crescem; nós cujos sofrimentos e perdas são causadas pelo próprio homem. Vemos filas enormes, cheias de diplomados em curso superior, habilitando-se a vaga de gari, quando os vocacionados à indústria da diversão e deleite supérfluos ganham fortunas e vão à TV discutir temas para os quais nunca se prepararam e julgando fazer o bem, desencaminham significativa parte da juventude com seus exemplos e conselhos excêntricos.

Nunca é má hora de valorizar as tantas e promissoras vocações ao estudo superior que há no Brasil. Quem sabe a vida de nós brasileiros possa ser mais sensatamente vivida, e sem tanta burocracia seja possível afastar da vida pública a gentalha que encarece tanto a vida de todos alegando estarem lutando por justiça social.

(*) Vide a primeira postagem deste blog, “A pergunta fundamental”, onde menciono a importância capital desta questão.

31 agosto 2005

Só o conhecimento da vocação é suficiente?

O conhecimento da vocação apenas não é suficiente para selecionar tudo em sua vida. Pois deve-se levar em conta, além do sujeito com sua dotação vocacional pessoal, o meio em que ele existe. Não se pode deixar de considerar o sujeito individual, seus relacionamentos, e as circunstâncias dentro das quais ambas essas coisas se dão.

Como características individuais e individualizantes do sujeito, tem-se suas aptidões naturais e adquiridas. Quando essas aptidões vêm do nascimento, costuma-se dar-lhes o nome de “dons”. Por exemplo, o dom para a música, para a pintura ou para a arte em geral. Alguns manifestam possuí-los desde muito cedo, numa época em que não seria razoável admitir alguma “influência do meio”, exceto se considerarmos como “meio” a sua hereditariedade física e psicológica.
Outras aptidões são as adquiridas pela história cultural do sujeito, pelo seu convívio com pessoas e instrumentos culturais diversos, mais afinados ou menos afinados com sua personalidade e dons inatos.

Mas aptidão não é vocação, bem como vocação não é a soma das aptidões inatas e adquiridas, mas o fator integrativo total delas. A vocação é o fator que dota de sentido esses recursos, tanto os que emergem com o sujeito quanto aqueles que sua personalidade vai incorporando ao longo de sua trajetória de vida.

Em resultado deste processo, manifesta-se o sujeito vocacionado a algo. Ao que nele é inato, somou-se aporte cultural adequado.

Porém este mesmo sujeito vive num tempo e num lugar determinados histórica e geograficamente. Sob esta ótica, ele é parte de uma comunidade e os interesses dessa comunidade se imporão sobre ele, sem que isto signifique anulá-lo ou extinguir nele aquilo que ultrapassa o tempo e o lugar. Por exemplo, o dom para a arte, valioso em si mesmo, não desaparece porque a comunidade não se interessa por aquela forma específica de arte. Apenas significa que tal dom não se traduzirá, naquele momento e lugar, num bem desejável e por isso as pessoas não estarão dispostas a pagar por ele. São inúmeros os exemplos de casos assim. Alguns tão famosos com Van Gogh, pintor que viveu miseravelmente mas cujas obras, passados alguns anos, adquiriram preços exorbitantes.

Por maior que seja o valor “em si” do dom individual da pessoa, ou mesmo de sua vocação, não se pode deixar de levar em conta os fatores sociais envolventes, as condições políticas e econômicas do lugar e época e assim por diante, que certamente contribuirão para o êxito maior ou menor da obra resultante ou mesmo a impedirão.

Pelo fato de tais fatores não serem previsíveis, mas apenas explicáveis a posteriori, dá-se-lhes o nome de “sorte”. Assim, além de conhecer qual seja a própria vocação, de modo que a partir daí seja possível fazer esforços convergentes numa certa direção, é necessário um pouco de “sorte”, isto é, que a comunidade valorize o bem ou serviço decorrente de tal vocação.

Um exemplo histórico impressionante disso é o famoso filósofo da Grécia Antiga, Aristóteles. Como não era grego, não era um “cidadão” e por isso não podia sequer discutir os problemas da cidade; na verdade, como se diz na gíria, era o último que falava e o primeiro que apanhava. Sua obra desapareceu por uns seiscentos anos e quando reapareceu, as traduções não eram boas, não faziam juz a seu verdadeiro conteúdo. Muitos anos depois, foram feitas traduções adequadas, a partir de quando ela pôde ir sendo apreciada no seu justo valor. O intervalo de tempo, entre sua morte e uma adequada tradução de sua obra, foi de mais ou menos uns dezesseis ou dezessete séculos.

Este eloqüente exemplo mostra que, às vezes, o valor da vocação “em si” pouco pesa quanto ao rumo dos acontecimentos ou no sentido de beneficiar aquele dela dotado social e economicamente.

Assim, é possível dizer com grande dose de razão que o valor fundamental do conhecimento de qual seja a própria vocação é que ele permite regramento dos esforços da pessoa. Em primeiro lugar porque tal conhecimento permite fazer convergir os esforços para uma vida com sentido; em segundo lugar, porque não é possível ter o domínio do meio circundante, pois vivemos dentro dele e ele nos contém e não o contrário. E por mais tecnologizado esteja o homem ou a comunidade, mesmo assim não é possível controlar os fatores externos que envolvem a vida. Sempre surge um imprevisto Tsunami, um Katrina, que tudo arrasa. Ou mesmo um simples e pequeno acidente, como o que vitimou Alexandre o Grande: tomou banho num rio, pegou uma doença e morreu no prazo de poucos dias. O grande homem, conquistador, guerreiro, e que ainda por cima tornou conhecidas universalmente as escrituras dos judeus, permitindo a grande parte da humanidade compreender que há um só e único Deus, foi morto em poucos dias por uma gripe ou algo semelhante. Quem diria? E um Roberto Jefferson surgir de repente mudando os destinos de um país?...Quem diria?....

24 agosto 2005

Os personagens públicos e suas vocações

A vocação específica da pessoa fica evidente em dois momentos extremos: quando ela a nada está obrigada ou quando as circunstâncias a obrigam fortemente a fazer alguma coisa. Nessas duas condições, o coração, a vontade e o entendimento se unem e dão base para a ação do espírito, que então escolhe certas alternativas e e rejeita outras. É portanto nessas horas que se age verdadeiramente em conformidade com sua vocação.

Alguns personagens cujos perfis cognitivos e vocacionais eu trouxe a público, com base em dados que observei e informações que coletei deles -- Marcos Valério, Delúbio dos Santos, José Dirceu -- estão na obrigação de fazer algo para livrar a própria pele. É quando então agirão fundados em suas vocações e terão suas idéias melhores e mais eficientes, as quais poderão até não funcionar, pois isso dependeria de muito mais coisas. Contudo, as soluções que propuserem devem ser vistas como expressão de sua máxima inteligência e unidade pessoal, isto é, deverão ser vistas como exteriorizações de suas vocações. Podem mostrar pouca inteligência e certamente mostraram baixa unidade pessoal, mas é o máximo que esses indivíduos atingirão por estarem com o coração, a vontade e o entendimento todos voltados para este momento de desespero. Observe então os contornos da vocação de cada um deles, personagens cujas ações e omissões pesam tanto sobre nossas vidas.

Pode estar certo que assim fazendo, você conseguirá enxergar com grande clareza porque o momento do sufoco é privilegiado para a descoberta da vocação. Aplique então a compreensão que obtiver sobre este maravilhoso tema da vocação e de sua descoberta ao próprio caso. Esta atitude reflexiva fortalecerá enormemente seu espírito.

13 agosto 2005

Vocação e vida (II)

No artigo “Vocação e vida”, esclareci que vocação é a unidade do intelecto, vontade e afetividade. No caso do japonesinho Roberto, observa-se que informática não responde à exigência de unidade de sua alma. Informática é algo que ele sabe, entende, mas de que não gosta a ponto de deixar outras coisas por ela e também não é algo com que queira ficar envolvido de maneira exclusiva e permanente. Seria como se apenas uma terça parte de sua alma estivesse vinculada ao assunto.

Isto não quer dizer que informática seja dispensável para ele. Apenas significa que, como assunto principal de sua vida ou profissão, seria muito insatisfatória. Como recurso complementar, totalmente satisfatório.

Tanto que quando lhe pareceu óbvio para sua vida que o caminho era a veterinária, imaginou-se criando um sistema capaz de fornecer informações a respeito de pet shop, cadastro de profissionais da área, preços de serviços etc.

Informática no seu caso nada mais é que uma aptidão. E aptidão é instrumento possível da vocação e não a vocação mesma.

A vocação e a relação com seu objeto

Antes de existir a internet, houve um menino de 12 anos, Roberto, que criou em casa, sozinho, uma BBS – Bulletin Board System – ferramenta de comunicação via modem, chegando a ter uns 50 usuários. Feito notável para a época, e acredito que o seria também hoje em dia.

Aos 17 anos, veio conversar comigo. Ia mal na escola, a ponto de estar quase repetindo o ano e não parecia se interessar por nada. Pensei comigo mesmo: seu caminho só pode ser a informática. Era engano. Nas conversas, soube por ele que o que mais o havia alegrado na vida tinha sido tratar de um cãozinho doente. Numas férias, havia viajado para a casa de um de seus tios, veterinário de cidade do interior. Imitando os procedimentos do tio, tratou do cãozinho, que se curou. Ficou orgulhoso consigo mesmo. Por causa da BBS, seus pais e amigos valorizavam sua facilidade com computadores. Contudo, não foi aquilo que mexeu com seu coração e sim a veterinária.
Uma vez relembrado, o episódio do cãozinho que curou não lhe saiu mais da cabeça. Sua mãe me perguntou que pozinho mágico usei, já que ele passou a mostrar-se interessado nos assuntos da escola, estava entusiasmado e dizia que ia fazer vestibular pra veterinária. Fez. Passou. Atualmente já deve ter-se formado.
Nas conversas com ele, comparei a criação da BBS e a cura do cãozinho. Mostrei que em ambos os casos ele agia impondo-se sobre o “objeto”. A diferença é que o primeiro, computador e softwares e demais coisas, não informava a respeito de si mesmo ou dele, Roberto. Já o cãozinho, informava sobre si mesmo e sobre ele. Tanto que quando o via abanava o rabo.
Depois de distinguir o resultado final de uma coisa e outra, Roberto disse que não ligava para informática porque por mais sensacional fosse o que fizesse, não sentia nem gratidão nem amizade por parte do computador ou para com ele. No caso de animais, sentia essas coisas e isto lhe dava tamanha alegria que nem sabia descrever.
Isso me faz lembrar Konrad Lorenz, que é autor do livro "A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso” da editora Brasiliense. No livro ele descreve o objeto preferencial de sua vocação: “As minhas sensações de alegria por ‘possuir’ alguma coisa têm por objeto, quase exclusivamente, animais vivos. Quando acontece num aquário que, por mero acaso e sem participação minha, um grupo grande de peixes cresce e se desenvolve, isso me enche de uma profunda satisfação, mesmo que se trate de alguma espécie muito comum e que não tenha para mim nenhum interesse.” (p.99)

K. Lorenz se alegra ao presenciar o espetáculo da multiplicação da vida; Roberto, ao presenciar o restauro da saúde do que está vivo.

12 agosto 2005

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (II)

Toda atividade possui um fim próprio. Alguns desses fins são tão úteis em termos práticos que as pessoas se interessam muito por eles. Em conseqüência disso, quem consegue atuar para que se atinja aquele fim adquire prestígio social e outras vantagens. Vai também adquirindo conhecimento sobre os melhores procedimentos para que se chegue àquele fim e esse conhecimento se acumula e é transmitido para outras pessoas. A repetição desses procedimentos desencadeia o surgimento da profissão, cuja finalidade será a manutenção da oferta de meios de se chegar aos fins que interessam as pessoas – saúde, consumo, educação etc.

O nome “profissão” significa ato, declaração ou confissão pública. Portanto, ao aderir a uma profissão, a pessoa está fazendo uma declaração pública de que orientará seus esforços para a produção daquele produto e não de outro.
Como é preciso estar vivo para poder agir, querer, desejar etc., é natural que as profissões que fornecem bens e serviços necessários à vida material mantenham prestígio, mesmo que variável, ao longo do tempo. É o caso, por exemplo, da medicina, da engenharia e do direito.

A reflexão a respeito do fim de cada atividade é de imenso valor. Muito dos descontentamentos, desequilíbrios e desajustamentos de toda ordem, físicos, sociais, psicológicos, não raro cravam suas raízes na combinação de dois elementos positivos que não combinam: de um lado, a vocação do sujeito, a qual é positiva em si mesma; de outro, a inalterável finalidade da profissão que escolheu. Quando ambos não combinam, surgem os problemas.

Suponham, por exemplo, um sujeito com vocação artística, festeiro, com facilidade para agitar o ambiente. Possuir essa capacidade é coisa positiva. Imagine-o agora trabalhando num banco, ambiente adequado aos vocacionados à contadoria, pessoas discretas, não raro falam baixo e costumam não gostar de pessoas barulhentas e agitadas. O conflito é inevitável. Conheço um diretor de Departamento de Esportes que odeia esportes, barulho e tem o maior nojo de roupa suada. Fui com ele uma vez ao aeroporto recepcionar uma equipe de atletas. Lá estavam parentes e amigos, com faixas, cantando, fazendo a maior festa. Ele ficava tentando se esconder atrás de pilastras, com vergonha de tudo que estava acontecendo, olhando para os lados como que movido pela necessidade de dar satisfação aos demais presentes e dizer-lhes que nada do que acontecia era por sua culpa.

Quem não conhece Ney Matogrosso? Filho de pai militar, lá pelos 17 anos foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília. Mas isto não durou muito, pois logo ele passou a fazer recreação com crianças. Por certo não seria possível para ele fazer carreira em laboratório, por melhor que lhe pagassem. Gilberto Gil é administrador de empresas por formação o que é impossível imaginar quando o vemos, mesmo ministro, dançando e cantando num encontro com autoridades internacionais. Que dizer do presidente Lula? Sua vocação é evidentemente de tipo artística. Uma coisa é o presidente que já foi artista e outra o artista que finge ser presidente. Ronald Reagan foi um presidente americano que no passado tinha sido artista, mas tinha tanta vocação para a política que foi um dos mais importantes presidentes americanos recentes. E o presidente Lula? Bem, é o que nós brasileiros estamos podendo verificar atualmente, on line: para ser presidente, não basta ser artista.

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (I)

Um dos tópicos que abordo nos cursos que dou sobre vocação é a finalidade da atividade.

O fim de qualquer atividade pode ser comparado ao ponto final de ônibus. Não se espera que alguém, ao entrar num ônibus, fique tentando impor ao motorista itinerário diferente do que já esteja previamente estabelecido. Se quiser isso, deve tomar um táxi ou ir no seu próprio carro. Não é papel do ônibus levar o sujeito aonde ele quiser. O ônibus o deixará num dos locais de parada previamente estabelecidos. Quando alguém entra numa profissão, é como se estivesse tomando um ônibus. Sua autonomia para mudar alguma coisa é pequena, como é no caso de um motorista conhecido ou que conhece bem o trajeto e que pára fora do ponto quando você pede. Mas o motorista de ônibus tem o fiscal que o vigia e pode fazê-lo perder o emprego. Cada profissional tem uma pequena margem de manobra para mudar os rumos de sua profissão e organizações, como os conselhos profissionais, que o fiscalizam e mantêm ou não sua autorização para trabalhar.

Assim como há pessoas que vivem se enganando e pegando ônibus errado, também é comum a escolher ofícios bem distantes da própria vocação. A razão disso? “Foi o que pude conseguir”, muitos dizem, sem se dar conta que a escolha foi feita, às vezes, há mais de dez anos.

07 agosto 2005

O possível efeito (des)educacional das CPIs

O conhecimento da vocação resulta muito mais de observar o que a pessoa realmente faz do que de escutar o que ela fala. Por quê? Porque a relação entre a vocação da pessoa e suas intenções declaradas é a mesma que há entre o exemplo e o conselho. Se um pai diz para o filho que ele deve ser responsável e dedicado com seus deveres escolares e ao mesmo tempo chega em casa mal humorado, falando mal do seu emprego, o que efetivamente está ensinando a seu filho é o contrário do que pretende, já que o exemplo é mais forte que o conselho.
Assistindo às CPIs, exibidas em todo o país com recordes de audiência, me pergunto: o que realmente está sendo ensinado ao povo? Contrariamente às que podem ser as intenções dos parlamentares mais sérios delas encarregados, o que pode estar sendo ensinado é que a melhor coisa, a mais decisiva e importante, é ter dinheiro, muito dinheiro; que quem possui muito dinheiro está livre de cadeia, ou se vai preso, é por pouco tempo, não importando a força e a quantidade das provas que tenha contra si.
O cidadão comum, que freqüenta os mercados, os feirões e demais lugares em busca de preços menores, está acostumado a ver a polícia jogar no camburão pivetes que furtam coisas de pouco valor. Porém, não vê o mesmo acontecer com pessoas endinheiradas, cujos advogados interpõem recursos que dilatam enormemente o tempo entre a demonstração da culpa e a pena, ficando a forte impressão de que no fim tudo acaba em pizza. São exibidas provas ou fortes indícios de algum tipo de crime, mas não a punição que certamente ocorreria caso o acusado fosse gente pobre, confirmando que tendo dinheiro pra distribuir, o resto se ajeita.

02 agosto 2005

A vocação em época de crise

Não é a primeira vez que os brasileiros nos sentimos como ilhas cercadas por mar de lama. Pudera, os causadores do escândalo atual são os que mais usaram, de maneira vazia, expressões como “honestidade”, “justiça”, “ética” e outras cujo sentido e valor nunca captaram.
Mas, absorvido o impacto do que para muitos é decepção, já que não contavam com algo assim, a vida voltará à rotina. Então, cada pessoa estará às voltas com o cuidado de sua própria vida. Cada pessoa terá de refletir a respeito do que está exclusivamente em suas mãos poder fazer para vencer os desafios que a vida lhe coloca. É quando ressurgirá o tema da vocação com sua permanente importância.
Mesmo agora, quando tudo parece muito confuso e todos com cargo público parecem culpados, certamente a solução honesta que houver para a crise só poderá ser proposta por quem for vocacionado a bem pensar justamente em situações de crise. Talvez não seja o meu caso nem o seu. Mas toda e qualquer coisa que existe é alimento para algum tipo de vocação. Deus providenciou isso e deixou à disposição do homem no momento em que o fez criatura capaz de tudo compreender, ainda que não o tempo todo e ao mesmo tempo.

31 julho 2005

As profissões e o dinheiro

A relação de qualquer profissão com o dinheiro não é direta. Se uma proporciona mais ganhos num determinado momento, é porque o que ela produz é visto pelas pessoas como sendo algo de valor. Caso contrário, todo profissional de alguma dita profissão “rentável” estaria muito bem de vida, o que a experiência demonstra que não acontece. Há advogados ricos e pobres, assim como médicos, jogadores, comerciantes...
A razão disso? Toda profissão tem uma finalidade própria, a qual não é, na maioria dos casos, ganhar dinheiro.

O rosto e a competência

Só vejo meu rosto quando me olho no espelho. Do mesmo modo, só fico sabendo de minhas próprias positividades em resultado do convívio com as pessoas. Aquilo que parece tão comum em mim, tão familiar, tão fácil e corriqueiro, nem sempre é visto assim pelo outro.

Por isso, é pouco comum alguém levar em conta o que tem em si de vocacional, isto é, o que gosta de fazer e faz bem. Ao escolher alguma carreira profissional, é comum pensar: “tenho de fazer algo que dê dinheiro”. Porém, não é a profissão que ganha dinheiro, mas o profissional a partir dela. E a melhor profissão para cada um é a que lhe valorize mais a vocação, pois desempenhando uma atividade vocacionada, fica fácil adaptá-la às mais diferentes finalidades, inclusive a de ganhar dinheiro.

30 julho 2005

O que responde à vocação da pessoa desperta-lhe o amor

Uma pessoa, uma arte, um partido ou seja lá o que for que manifeste qualidades do “objeto preferencial” da vocação de alguém pode exercer poderosa força sobre ele, sobre seu coração e mente. É como se cada pessoa possuisse um sistema que, como o GPS, fosse capaz de localizar tais objetos: basta o objeto que tem apelo à sua vocação, o objeto realizável, surgir no seu radar que o sistema foca nele.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.

Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.

Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.

O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.

Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.

As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 3

Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”

Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.

Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.

Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.

Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.

Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças...” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.

26 julho 2005

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 2

Há coisas que só existem no mundo dos homens. A arte por exemplo.

Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.

O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.

Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.

O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.

No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.

Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.

A vocação é o princípio da capacidade de amar - I

Amor é diferente de paixão. O primeiro, é reflexo de capacidade que só existe no homem e em nenhum outro animal; a segunda, é reflexo de fatores corporais e psicológicos. Quando a pessoa é movida pelo amor, seu desejo é o de servir ao amado; quando pela paixão, o desejo é que o outro lhe sirva. No amor, a ênfase é na doação de si ao outro; na paixão, é na apropriação do outro. Por isso com razão se diz que o amor enaltece a quem ama e ao mesmo tempo informa muito pouco a respeito do amado.

25 julho 2005

O momento da importância indiscutível da vocação

Um momento de grave crise pessoal ou nacional é o momento em que se nota a indiscutível importância da vocação. Nada mais há com que se possa contar; a crise mostra toda a sua cara; nenhum malabarismo ou prestidigitação tem o poder de criar soluções ilusórias.

Um exemplo histórico recente desta condição foi a crise da Argentina. A falência dos empregadores de toda espécie colocou os argentinos numa situação extrema: cada um teria de providenciar os meios capazes de garantir a vida. Nessas horas, não adianta apenas “bater o cartão de ponto” e pendurar o paletó na cadeira para enganar que está trabalhando. Nessas horas, o que cada um tem de fazer exige seu comprometimento total, do sentimento, da vontade e do intelecto. Isso é o mesmo que dizer que cada um tem que agir conforme a sua vocação.
Os ocupantes de cargos de governo ou empresas, se querem tirar o país daquela situação extrema, teriam de ser os mais competentes e capazes de responder às exigências reais da situação.
O filme "O outro lado da nobreza" (Restoration - EUA, 1995 - 113 min.), com direção de Michael Hoffman, com Robert Downey Jr., Meg Ryan, Sam Neill e Hugh Grant também mostra magistralmente esta verdade: o personagem central da história, vocacionado à medicina, só se compromete totalmente com sua vocação quando perdeu tudo inclusive e principalmente o maior amor de sua vida. Aí só lhe restou o que era dele, estava nele e só poderia ser feito por ele. Foi quando então até o rei o saudou como a um nobre.

É quando não resta mais nada à pessoa que sua vocação mostra toda sua força, pois na verdade é a única coisa que resta e é a primeira e mais importante de todas. Ela é o coringa que Deus deu para cada um de modo a capacitá-lo a ser vitorioso no jogo da vida.

24 julho 2005

Vocação não é profissão

A profissão é efeito da vocação e não o contrário. As profissões surgem e desaparecem. Cada profissão enquadra a inteligência dos que a ela se dedicam, já que nem tudo que uma pessoa tem a oferecer combina com o objetivo da profissão. Por isso, como toda pessoa tem mais a oferecer à vida do que qualquer profissão exige, há sempre uma significativa cota de frustração em toda profissão.

Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos -- gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade -- como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.

Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.

O surgimento da profissão

Uma profissão começa quando surgem pessoas dispostas a pagar pela sua existência e termina quando elas desaparecem.
O que motiva as pessoas a pagar por algo é sua utilidade. Vamos supor a medicina: num dia qualquer, alguém teve algum problema de saúde. Se não sarou sozinho ou morreu, apareceu alguém que procedeu de um certo jeito e contribuiu para sua restauração. Como estar vivo é melhor do que estar morto, os procedimentos associados à recuperação do doente passaram a ser imitados, não por todos, mas por aqueles capazes de prestar atenção no que era feito nesses casos.
Talvez nosso hábito de fumar tenha sido conseqüência de algo assim: os franceses observaram feiticeiros inalando fumaça de gravetos nos quais punham fogo e chupavam e imitaram. Mas os feiticeiros faziam isso provavelmente acreditando que seriam capazes de curar pessoas introduzindo nelas o mesmo o princípio capaz de eliminar tudo – o fogo. Chupar graveto com ponta fumegante seria o mesmo que encher-se de fogo, tornando-se semelhante, por momentos, ao mais superior e mágico dos elementos, cuja propriedade principal é tornar tudo semelhante a si.
Com o passar do tempo e acúmulo de experiência, a associação entre certos procedimentos e a geração de saúde vai naturalmente desencadeando a separação de algumas pessoas da comunidade das demais. A estas a comunidade concorda em obedecer nos casos específicos de necessidade de restauro da saúde; depois na manutenção da saúde e finalmente a comunidade os quer para prevenir doenças ou para garantir que ele lá estará em caso de doença.
A ponta final do processo é o surgimento de indivíduos e até de uma classe de pessoas habilitadas ao ofício cujo fim é a cura ou manutenção da saúde.

Quando uma comunidade está interessada num número crescente de coisas, não quer dizer que cada indivíduo também esteja interessado em todas essas coisas. Uns sim, outros não. Uma vez que algo adquira importância, é natural que o número de interessados por ela aumente. Porém, toda comunidade se interessa por coisas reais ou que se creiam reais. E é só por tais coisas que as pessoas pagam. Quando alguém cai num golpe e compra o Viaduto do Chá, ou quando compra um carnê que promete prêmio que nunca virá e demais coisas que só lhes tiram dinheiro e posses, não o fazem senão porque supõem estar pagando por coisas reais. A razão de sua conduta é o interesse por algo que lhes parece real, ainda que não o seja. Só que, nesses casos o que aconteceu é que alguns agiram imitando os “verdadeiros” profissionais, isto é, aqueles em que a comunidade deposita fé. Mas mesmo as práticas dos que assim agem, atuando sobre a mente dos desavisados, fazem surgir novas profissões ao mesmo tempo que reforçam outras.
Em todo esse processo de surgimento de profissão, algo me parece indiscutível: todas começam com um sujeito apenas -- o sujeito vocacionado a ela. Os seguintes, imitam seus procedimentos, melhorando-os, aperfeiçoando-os.

21 julho 2005

A vocação espiritual do homem - II

Nem sempre é fácil tirar conseqüências práticas de textos como o "A vocação espiritual do homem", que escrevi há uns dias . Por isso, retomo o assunto: quando digo “espiritual”, quero dizer “o que é próprio do homem, o que é exclusivo da inteligência do homem”.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.

O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.

A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.

A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.

Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.

Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.

Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto...Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.

09 julho 2005

A vocação do sapateiro

A prática da atividade vocacionada mostra seu real valor em situações em que a pessoa esteja passando por sérias dificuldades. Nessas horas é que surge com mais força a pergunta: “O que posso fazer para superar as dificuldades?” A resposta é: “Faça a expressão de sua vocação”.
Foi o que aconteceu com ex-sapateiro, meu vizinho. Surgiram nos shoppings as chamadas sapatarias do futuro. Ele e grande número de sapateiros viram-se sem emprego de uma hora para outra. Para não ficar em casa brigando com a mulher, ele decidiu que daria uma volta de ônibus longa todo dia, indo até o centro da cidade, mesmo que não tivesse nada o que fazer lá. Um dia, observou um homem e seu cachoro. Foi pra casa, pegou uns restos de couro que possuía e fez algumas coleiras, usando também metal para enfeitá-las. Ofereceu-as a um dono de pet shop no shopping, que pediu que ele fizesse mais vinte. Tornou-se fornecedor desta loja, que foi a primeira das diversas que hoje atende. Tanto que teve de mudar sua oficina, de sua casa para uma nova instalação fora de casa, justamente num shopping!
Cada um tem seus problemas, mas antes de tê-los, é dotado de vocação para alguma coisa. Aí é questão de descobrir um modo de solucionar seus problemas com o produto de sua atividade vocacionada.

05 julho 2005

Vocação e vida

Quer saber se o que você está fazendo é manifestação pura e simples de sua vocação ou não? Então responda às seguintes perguntas:

a) você entende do que faz?
b) você gosta do que faz?
c) você acha que o que faz é responsabilidade sua?

Se a resposta às três questões for “sim!”, então trata-se de vocação; caso contrário, não.

Você, eu e praticamente todo mundo pensamos saber exatamente o que é conhecimento, sentimento e vontade. Mas tente definir precisamente. Você sabe mesmo? Só que para realmente entender o que é vocação é preciso saber o que são essas coisas com clareza.


Conhecimento é uma palavra que reúne duas noções: a de ser e a de união entre seres. Por exemplo: vejo pela primeira vez um monte de pedras. Não sei a diferença entre uma e outra, já que não conheço pedras. Mas por qualquer motivo – agradar a uma pessoa querida que se interessa por pedras, curiosidade, falta do que fazer – começo a estudar as pedras e a entender o que são, o que as distingue umas das outras e assim por diante. As pedras vão deixando de ser uma coisa estranha para mim: basta eu olhar que já sei distinguir uma da outra. O ser ao qual se dá o nome pedra passou a estar ligado ao meu ser, deixou de ser algo estranho para mim para ser parte integrante de mim, isto é, de minha mente, de minha inteligência. Possuo agora na minha mente uma representação intencional da pedra, que é tão pedra em minha mente quanto a pedra é pedra no mundo exterior.
O termo conhecimento, portanto, resume todo esse processo de transformação de duas coisas (eu e a pedra) em uma só. Antes, eram dois seres diferentes, sem ligação nenhuma e, agora, não deixam de ser dois seres diferentes, porém com uma ligação entre eles: à pedra exterior corresponde a essência da pedra que está na minha mente. Agora, estão unidos (cum) dois seres (esse), o que dá cum + esse, de onde vem conhecer. Conhecimento significa o ato de conhecer.

Sentimento é o resultado de alterações provocadas em mim por alguma coisa externa à minha consciência. Tem coisa que eu conheço aqui e agora, eu sei que conheço, e por isso não constitui para mim novidade. Acontece que, de vez em quando, surge uma informação que é nova para mim e ela me modifica; mas me modifica não só nesta ou naquela parte do corpo, mas globalmente. Quando a modificação é nesta ou naquela parte do corpo trata-se de sensação; quando é global, a ponto de eu não poder dizer que é nesta ou naquela parte do corpo, trata-se de sentimento. Portanto, “sentir é ser afetado”; é ser globalmente alterado por uma certa novidade, é ser alterado “por dentro” de mim mesmo. Dependendo do tipo de alteração, adoto um nome que serve para distingui-la: tristeza, alegria, saudade, depressão, contentamento, e assim por diante.

Vontade é a capacidade que possuo para desencadear efeitos; mas somente os efeitos cuja causa sou eu mesmo. Por exemplo, pego esta chave e tranco a porta; com tal ação provoquei um certo efeito que será conhecido tão logo alguém queira entrar nesta sala. Mas este efeito, que denomino “a porta está trancada” não é causado por mim, e sim pelo esquema mecânico próprio do uso da chave na fechadura da porta. A chave,no entanto, não iria sozinha meter-se na fechadura da porta. É preciso que ela seja transportada até lá por alguém. Eu sou aquele que quis fazê-lo. A primeira causa de a porta estar trancada fui eu, foi a minha vontade; a causa mecânica é apenas um de seus resultados. Em última instância, sou eu quem está no início, na ponta da linha; fui eu quem desencadeou todos os demais efeitos de a porta estar trancada como alguém tentar entrar, desistir e ir fazer outra coisa. A primeira causa sou eu. E vontade é justamente esta capacidade para ser a causa primeira dos efeitos que se seguirão. Assim, o ato da vontade, por ter como causa primeira o próprio sujeito, é sempre criativo. Eu tive vontade de fazer algo e criei o modo de fazê-lo.

Portanto, vocação é a reunião, num ato só, de conhecimento, sentimento e vontade.

Conhecer mas não gostar do que conhece, nem ter vontade de fazer algo com o que se conhece, não é vocação mas apenas um de seus componentes. É aptidão: conheço, sei fazer, mas não me importo com o assunto nem quero me envolver. Por exemplo se na minha casa todo mundo toca algum instrumento e, por isso, eu entendo de música, sei quando há desafinação ou algo está fora do ritmo, mas nunca quero tocar qualquer instrumento, então tenho aptidão para música mas não vocação.
Pode ocorrer o contrário: gosto de música, quero tocar um instrumento, mas não sei fazê-lo. Preciso estudar violão, por exemplo. Já no primeiro mês estou tocando mais e melhor do que a maioria que estuda há mais tempo. Passa o tempo e já supero os alunos mais antigos. Por que isso acontece? Porque gosto (sentimento), quero (vontade) e conheço (conhecimento, razão) com muita facilidade aquele assunto.
Claro que, partindo desta base tríplice de conhecimento, sentimento e vontade, é possível fazer distinções técnicas cada vez mais precisas. Por exemplo, há um certo conhecimento que parece não ter nenhuma origem, já que se manifesta na pessoa desde muito criança, quando ela não teve ainda nenhuma instrução e treinamento formal a respeito do assunto. Há outros conhecimentos que resultam de aprendizado, seja em casa, seja na escola. Por isso as expressões “aptidão ou conhecimento inato ou adquirido”, que esclarecem se a pessoa “já nasceu sabendo” aquilo ou não.

Para saber se o que acabei de explicar é verdadeiro, tem que ser confirmado por fatos, como por exemplo estar presente no discurso de alguém que conheça este assunto e o exponha com outras palavras. É justamente o que acontece no artigo do Consultor Organizacional Roberto Shinyashiki cujo título é “Vocação". Ele escreveu:

“Por mais que escolha a profissão de acordo com a sua vocação, haverá
inúmeras tarefas que não são fáceis de cumprir, mas que você realizará
por amor e por respeito à sua missão e às pessoas que dependem de sua
competência.”

“Respeito à missão” é o mesmo que conhecimento da razão determinante; “amor” é produto da vontade e “respeito às pessoas que dependem de sua competência”, sentimento.
Qualquer que seja a atividade a que a pessoa se dedique, ela pode fazê-lo de maneira vocacionada ou não. Porém, há certas atividades que se mostram ser ocasião propícia para que uma pessoa aja vocacionadamente. Esta ocasião, quando ocorre no campo profissional, é a profissão ideal ou compatível com a vocação.
Há em cada pessoa um conhecimento que se manifesta desde muito cedo, e continua presente nas diversas atitudes que vai tomando durante sua vida. Quando os motivos destas atitudes são valorizados e a eles fornecido o aporte cultural adequado, a pessoa é feliz; caso contrário, não. Nem todas as pessoas têm força de vontade suficiente para enfrentar os obstáculos colocados pelo meio ambiente às suas atitudes, as quais manifestam sua vocação, ou um de seus fortes componentes. O cantor Elton John é um exemplo: além de cantor é compositor, arranjador e pianista. Seu pai era um banqueiro, o qual se opunha veementemente à idéia de que ele se tornasse músico – “música não dá dinheiro”. Seu pai queria que ele ganhasse dinheiro e não enxergava outro melhor meio para isso do que seu ingresso, de corpo e alma, no mercado financeiro.
De fato, não é totalmente infundada a idéia de que música não dá dinheiro, já que na grande maioria dos casos, a vocação musical não se acompanha de aptidão ou mesmo de vocação ao comércio. Não no caso de Elton John. Entre ganhos, lucros e dívidas, ele movimenta fortunas (porque o sujeito que consegue lidar com dívidas muito altas mostra que tem capacidade de lidar com altas cifras, pois nenhum banco empresta dinheiro para você se você não mostrar que tem capacidade de gerar quantidade de dinheiro equivalente).
A vocação de Elton John para a música é imensa e, além disso, não exclui sua participação na vocação familiar, isto é, na vocação ao comércio. De modo que ao contrário do que o pai julgava, ele conseguiu ganhar muito dinheiro com a música.

A vocação não é algo que possa ser ligado ou desligado à vontade. Na verdade, ela nunca está desligada. O que acontece muito é tal assunto não estar claro para a maioria das pessoas insatisfeitas com a própria vida e que ignoram o que fazer para mudá-la para melhor. Por isso, naquele mesmo artigo, Shinyashiki escreve:

“Não importa qual a sua idade, é sempre importante dar uma pausa na
correria do trabalho para analisar se você está realizando a sua
vocação.”

Porque vocação e vida são termos praticamente sinônimos. A vida é um eterno acontecer, onde se destacam aqui e ali um estado de alma, uma decisão ou um ato de conhecer. É que a vida, por ser essencialmente dinâmica, e o homem um ser finito e corpóreo, permite a manifestação intensa de cada uma dessas coisas não de maneira simultânea, mas alternada. Mas, olhando bem, analisando bem, passando um pente fino nas atitudes próprias ou alheias, vê-se que lá estão presente conhecimento, amor e sentimento, ou, nas palavras de Shinyashiki, missão ou dever, realização e respeito, formas diferentes de se referir a conhecimento, vontade e sentimento, bem como à sua reunião.

04 julho 2005

A vocação espiritual do homem

Tudo que existe pode ser desejado ou amado por alguém.

Se amo uma pessoa, quero estar com ela, vê-la, ouvi-la, sempre. Se estou apaixonado, sinto que quero e posso entendê-la e até me sinto fazendo isso, se por acaso ela também gostar de mim. Mas não são apenas as pessoas que podem ser objetos de nosso amor. O homem é capaz de sentir-se do mesmo jeito por qualquer outra coisa.

O homem é a única criatura viva capaz de viver em qualquer lugar do planeta. Formigas, cães, gatos, pulgas, baratas, pernilongos: só os encontramos em determinados lugares, mas os homens -- eles estão em todos os lugares. É porque ele é capaz de se adaptar ou se acostumar com qualquer situação e de alterar qualquer ambiente e adaptá-lo a seus interesses.

Quando gosto muito de algo, quero mostrar para os outros para que também gostem. Mas você gosta de outras coisas, meu vizinho de outras ainda e assim sucessivamente por toda a humanidade de modo que tudo que existe é passível de ser amado, compreendido, sentido.

Ver é coisa mais ampla do que pegar. Minhas mãos permitem que eu pegue isto ou aquilo, mas minha visão permite que eu veja isto, mais aquilo, mais aquilo outro...Não há limite para a quantidade de coisas que eu posso ver.
De todos os órgãos dos sentidos, a vista é o que ocupa a posição mais elevada. Por isso é comparada ao que há mais nobre na inteligência do homem: a capacidade de ver, de enxergar coisas. Como para amar é preciso conhecer e para conhecer mais, ver mais, a criatura que mais consiga ver é a que mais encontra o que amar. Por isso o homem é capaz de amar mais do que qualquer outra criatura e também de amar toda e qualquer coisa.

Quando o sujeito vê algo espetacular, ele quer mostrar esta mesma coisa pra todo mundo. Este é um dos sentidos do “mito da caverna” de Platão: vivendo num mundo de penumbra e sombras, um homem escapa e vê o mundo exterior, a luz do sol e as cores, os movimentos e tudo o mais que existe fora da caverna. Volta para tentar mostrar aos outros que também podem ver o que ele viu. E mesmo que arrisque sua vida para convencê-los, não desiste do empreendimento.

Pela visão, posso “tocar” o que há de mais imaterial..

Entende-se vocação, tradicionalmente, como “chamamento”. “Algo” chama o homem para este ou aquele esquema de vida. Daí surgem os heróis de vários tipos e surgem contentamentos e descontentamento de toda espécie. Sendo o homem como é, capaz de enxergar mais do que qualquer outra criatura – mais distante até do que a águia, por exemplo, pois se esta enxerga longe, o homem enxerga mais longe ainda com suas lunetas, telescópios e microscópios – é natural colocar-se as eternas perguntas “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Em busca da resposta, em todas as épocas, o homem criou ciências; ciências que em épocas seguintes serão vistas como superstições, já que as mais atuais, são sentidas como mais perfeitas do que as anteriores. Nessa caminhada de ciência e tecnologia, a vida do homem se descomplica em alguns setores e se complica em outros.

Qual a condição na qual qualquer pessoa pode viver a experiência de esquecer-se de si mesmo, concentrar-se em algo que lhe é exterior e bem servir ao próximo? É justamente a vida profissional.

Quando você procura um profissional, não está interessado nos problemas pessoais que ele tenha, mas quer sua atenção, seu serviço, sua competência. E os terá, caso ele seja vocacionado para o que faz, já que a vocação é justamente a capacidade que o homem possui para relacionar-se com a vida e imitar, nesta relação, o desapego que ocorre sempre que se está diante do que mais ama, quer e é apto a entender.

Quanto mais compatível com a vocação pessoal é a profissão escolhida, mais se fundem o amor e o trabalho, uma coisa passando a existir por causa da outra. Pois todo trabalho é feito em virtude do bem de alguma outra pessoa, do mesmo modo que se estou apaixonado, todos os meus pensamentos são para a minha amada.

É compreensível, então, porque pensamos logo em profissão, quando falamos em vocação. E mais, passamos logo a considerar que é coisa de interesse para o adolescente apenas. Porque presume-se que o adulto, já instalado em sua condição profissional, escolheu algo que ele é capaz de entender, de querer e até de amar. Tanto é que consegue cuidar, com seu trabalho, de mais pessoas do que aquelas que é capaz de vir a conhecer durante toda sua vida.

Tudo isso só é possível ao homem. E o termo que se usa para manifestar algo só presente no homem e em nenhuma outra criatura é “espírito”. Por isso, é correto dizer que é através da sua vocação pessoal que cada pessoa é capaz de realizar a verdadeira vocação espiritual do homem.

03 julho 2005

Posso deixar minha criança sob os cuidados de Beth?

Apareceu na TV: a funcionária de uma creche maltratando algumas criancinhas. Todos os pais que deixam seus filhos em creches se perguntaram: “É prudente deixar as crianças sob os cuidados de Beth?” Foi a pergunta que me fez a orientadora de uma escola.
Mas devolvi a pergunta: Qual a sua opinião?
Ela respondeu que gostava de Beth e a achava adequada para a tarefa, mas pediu-me que fizesse seu perfil cognitivo, que apresento resumido:

Beth tem facilidade inata para perceber suas chances em situações desafiantes. Possui nível de exigência com a linguagem acima da média e percebe instintivamente as contradições presentes no pensamento alheio. É extremamente atenciosa com aqueles com quem entra em relação. Tem grande capacidade de imaginação e por isso sempre antevê alguma satisfação pessoal mesmo naquilo que a frustra. E isso vale também para os outros -- consegue apontar o outro lado de uma experiência ruim. É criativa: não precisa de muito recurso material para ter confiança e segurança suficientes para dar início a alguma atividade que convenha a seus propósitos.”

O perfil cognitivo de Beth, portanto, parece compatível com atividades pedagógicas, onde tenha de ensinar e também ajudar cada criança a adquirir progressivamente confiança em si mesma.
O testemunho favorável, dado por quem a conhece, confirma sua adequação ao ofício de cuidar de crianças. O que demonstra que o que faz não é apenas porque entende do que faz, mas porque escolheu livremente e ama fazê-lo, as
três marcas distintivas da conduta vocacionada.

Perfil cognitivo do Presidente Lula

Por alguém gosta do Presidente Lula?
Dar resposta a esta questão é o mesmo que investigar a vocação de Lula.
A vocação dá a seu portador, quando agindo em concordância com ela, autoridade e notável eficiência no que faz. Autoridade não é algo subjetivo; ela afeta o público objetivamente e o público sabe reconhecê-la, o que cria eficiência no agir.
Em que setor da vida tais coisas acontecem tendo como centro o senhor Luiz Inácio Lula da Silva? No setor em que a habilidade para atividade da representação é condição de eficiência.
Os fatos parecem confirmar: Lula conseguiu seu maior êxito quando resolveu deixar de lado as próprias convicções e aceitou apenas representar um papel capaz de cair no gosto do maioria. Foi aí que conseguiu ser eleito Presidente da República.

A exposição de seu perfil cognitivo fornece elementos capazes de aumentar a compreensão de minha resposta.
O que se observa em Lula é que ele:
a) tem percepção muito clara de si mesmo, a ponto de não experimentar dúvidas a respeito de quem seja ou do modo próprio de fazer as coisas. Tanto é assim que praticamente não consegue não improvisar em suas manifestações públicas, mesmo quando fortemente aconselhado a não fazê-lo;
b) possui elevadíssima dose de confiança na própria competência para encenar todo e qualquer personagem que seja conveniente a seus propósitos;
c) possui enorme facilidade para dar expressão corporal a seus estados de espírito;
d) é dotado de poderosa imaginação, sendo capaz de ficar alheio às condições reais e concretas que o cercam.

Tais características são fundamentalmente compatíveis com ofícios ligados à arte da representação.
Tal arte tem vínculo mais forte com a situação real e concreta da sociedade à volta do indivíduo em função da força de seus conhecimentos. Quanto maior seu conhecimento e cultura, mais apto ele está para analisar as circunstâncias, sem distorcer tal análise devido a preferências pessoais e subjetivas. Quanto menor, mais o viés de suas preferências pessoais e sujetivas imperam, comprometendo sua visão do mundo real e diminuindo sua autoridade e eficiência.
Já poderíamos especular sobre o sucesso de Lula em sua arte, dado o seu nível cultural, mas o curso dos acontecimentos esclarecerá qual a condição real de compatibilidade da vocação de Lula para a arte de representar e a situação real e concreta à sua volta.

02 julho 2005

A pergunta fundamental

"Por que gostam de mim?" Esta é a pergunta que, quando respondida corretamente, permite a qualquer um conhecer qual é sua vocação. Sempre há alguém que realmente gosta de você e os motivos que a fazem gostar mostram o que há de fundamental em você. Isso vale também para se conhecer a vocação de uma outra pessoa -- os motivos pelos quais as pessoas gostam dela.É a partir daí que podemos saber se o ofício que escolheu é compatível com ela.