13 agosto 2005

A vocação e a relação com seu objeto

Antes de existir a internet, houve um menino de 12 anos, Roberto, que criou em casa, sozinho, uma BBS – Bulletin Board System – ferramenta de comunicação via modem, chegando a ter uns 50 usuários. Feito notável para a época, e acredito que o seria também hoje em dia.

Aos 17 anos, veio conversar comigo. Ia mal na escola, a ponto de estar quase repetindo o ano e não parecia se interessar por nada. Pensei comigo mesmo: seu caminho só pode ser a informática. Era engano. Nas conversas, soube por ele que o que mais o havia alegrado na vida tinha sido tratar de um cãozinho doente. Numas férias, havia viajado para a casa de um de seus tios, veterinário de cidade do interior. Imitando os procedimentos do tio, tratou do cãozinho, que se curou. Ficou orgulhoso consigo mesmo. Por causa da BBS, seus pais e amigos valorizavam sua facilidade com computadores. Contudo, não foi aquilo que mexeu com seu coração e sim a veterinária.
Uma vez relembrado, o episódio do cãozinho que curou não lhe saiu mais da cabeça. Sua mãe me perguntou que pozinho mágico usei, já que ele passou a mostrar-se interessado nos assuntos da escola, estava entusiasmado e dizia que ia fazer vestibular pra veterinária. Fez. Passou. Atualmente já deve ter-se formado.
Nas conversas com ele, comparei a criação da BBS e a cura do cãozinho. Mostrei que em ambos os casos ele agia impondo-se sobre o “objeto”. A diferença é que o primeiro, computador e softwares e demais coisas, não informava a respeito de si mesmo ou dele, Roberto. Já o cãozinho, informava sobre si mesmo e sobre ele. Tanto que quando o via abanava o rabo.
Depois de distinguir o resultado final de uma coisa e outra, Roberto disse que não ligava para informática porque por mais sensacional fosse o que fizesse, não sentia nem gratidão nem amizade por parte do computador ou para com ele. No caso de animais, sentia essas coisas e isto lhe dava tamanha alegria que nem sabia descrever.
Isso me faz lembrar Konrad Lorenz, que é autor do livro "A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso” da editora Brasiliense. No livro ele descreve o objeto preferencial de sua vocação: “As minhas sensações de alegria por ‘possuir’ alguma coisa têm por objeto, quase exclusivamente, animais vivos. Quando acontece num aquário que, por mero acaso e sem participação minha, um grupo grande de peixes cresce e se desenvolve, isso me enche de uma profunda satisfação, mesmo que se trate de alguma espécie muito comum e que não tenha para mim nenhum interesse.” (p.99)

K. Lorenz se alegra ao presenciar o espetáculo da multiplicação da vida; Roberto, ao presenciar o restauro da saúde do que está vivo.

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