A relação de qualquer profissão com o dinheiro não é direta. Se uma proporciona mais ganhos num determinado momento, é porque o que ela produz é visto pelas pessoas como sendo algo de valor. Caso contrário, todo profissional de alguma dita profissão “rentável” estaria muito bem de vida, o que a experiência demonstra que não acontece. Há advogados ricos e pobres, assim como médicos, jogadores, comerciantes...
A razão disso? Toda profissão tem uma finalidade própria, a qual não é, na maioria dos casos, ganhar dinheiro.
31 julho 2005
O rosto e a competência
Só vejo meu rosto quando me olho no espelho. Do mesmo modo, só fico sabendo de minhas próprias positividades em resultado do convívio com as pessoas. Aquilo que parece tão comum em mim, tão familiar, tão fácil e corriqueiro, nem sempre é visto assim pelo outro.
Por isso, é pouco comum alguém levar em conta o que tem em si de vocacional, isto é, o que gosta de fazer e faz bem. Ao escolher alguma carreira profissional, é comum pensar: “tenho de fazer algo que dê dinheiro”. Porém, não é a profissão que ganha dinheiro, mas o profissional a partir dela. E a melhor profissão para cada um é a que lhe valorize mais a vocação, pois desempenhando uma atividade vocacionada, fica fácil adaptá-la às mais diferentes finalidades, inclusive a de ganhar dinheiro.
Por isso, é pouco comum alguém levar em conta o que tem em si de vocacional, isto é, o que gosta de fazer e faz bem. Ao escolher alguma carreira profissional, é comum pensar: “tenho de fazer algo que dê dinheiro”. Porém, não é a profissão que ganha dinheiro, mas o profissional a partir dela. E a melhor profissão para cada um é a que lhe valorize mais a vocação, pois desempenhando uma atividade vocacionada, fica fácil adaptá-la às mais diferentes finalidades, inclusive a de ganhar dinheiro.
30 julho 2005
O que responde à vocação da pessoa desperta-lhe o amor
Uma pessoa, uma arte, um partido ou seja lá o que for que manifeste qualidades do “objeto preferencial” da vocação de alguém pode exercer poderosa força sobre ele, sobre seu coração e mente. É como se cada pessoa possuisse um sistema que, como o GPS, fosse capaz de localizar tais objetos: basta o objeto que tem apelo à sua vocação, o objeto realizável, surgir no seu radar que o sistema foca nele.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.
Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.
Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.
O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.
Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.
As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.
Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.
Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.
O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.
Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.
As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.
A vocação é o princípio da capacidade de amar – 3
Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”
Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.
Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.
Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.
Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.
Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças...” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.
Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.
Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.
Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.
Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.
Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças...” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.
26 julho 2005
A vocação é o princípio da capacidade de amar – 2
Há coisas que só existem no mundo dos homens. A arte por exemplo.
Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.
O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.
Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.
O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.
No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.
Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.
Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.
O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.
Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.
O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.
No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.
Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.
A vocação é o princípio da capacidade de amar - I
Amor é diferente de paixão. O primeiro, é reflexo de capacidade que só existe no homem e em nenhum outro animal; a segunda, é reflexo de fatores corporais e psicológicos. Quando a pessoa é movida pelo amor, seu desejo é o de servir ao amado; quando pela paixão, o desejo é que o outro lhe sirva. No amor, a ênfase é na doação de si ao outro; na paixão, é na apropriação do outro. Por isso com razão se diz que o amor enaltece a quem ama e ao mesmo tempo informa muito pouco a respeito do amado.
25 julho 2005
O momento da importância indiscutível da vocação
Um momento de grave crise pessoal ou nacional é o momento em que se nota a indiscutível importância da vocação. Nada mais há com que se possa contar; a crise mostra toda a sua cara; nenhum malabarismo ou prestidigitação tem o poder de criar soluções ilusórias.
Um exemplo histórico recente desta condição foi a crise da Argentina. A falência dos empregadores de toda espécie colocou os argentinos numa situação extrema: cada um teria de providenciar os meios capazes de garantir a vida. Nessas horas, não adianta apenas “bater o cartão de ponto” e pendurar o paletó na cadeira para enganar que está trabalhando. Nessas horas, o que cada um tem de fazer exige seu comprometimento total, do sentimento, da vontade e do intelecto. Isso é o mesmo que dizer que cada um tem que agir conforme a sua vocação.
Os ocupantes de cargos de governo ou empresas, se querem tirar o país daquela situação extrema, teriam de ser os mais competentes e capazes de responder às exigências reais da situação.
O filme "O outro lado da nobreza" (Restoration - EUA, 1995 - 113 min.), com direção de Michael Hoffman, com Robert Downey Jr., Meg Ryan, Sam Neill e Hugh Grant também mostra magistralmente esta verdade: o personagem central da história, vocacionado à medicina, só se compromete totalmente com sua vocação quando perdeu tudo inclusive e principalmente o maior amor de sua vida. Aí só lhe restou o que era dele, estava nele e só poderia ser feito por ele. Foi quando então até o rei o saudou como a um nobre.
É quando não resta mais nada à pessoa que sua vocação mostra toda sua força, pois na verdade é a única coisa que resta e é a primeira e mais importante de todas. Ela é o coringa que Deus deu para cada um de modo a capacitá-lo a ser vitorioso no jogo da vida.
Um exemplo histórico recente desta condição foi a crise da Argentina. A falência dos empregadores de toda espécie colocou os argentinos numa situação extrema: cada um teria de providenciar os meios capazes de garantir a vida. Nessas horas, não adianta apenas “bater o cartão de ponto” e pendurar o paletó na cadeira para enganar que está trabalhando. Nessas horas, o que cada um tem de fazer exige seu comprometimento total, do sentimento, da vontade e do intelecto. Isso é o mesmo que dizer que cada um tem que agir conforme a sua vocação.
Os ocupantes de cargos de governo ou empresas, se querem tirar o país daquela situação extrema, teriam de ser os mais competentes e capazes de responder às exigências reais da situação.
O filme "O outro lado da nobreza" (Restoration - EUA, 1995 - 113 min.), com direção de Michael Hoffman, com Robert Downey Jr., Meg Ryan, Sam Neill e Hugh Grant também mostra magistralmente esta verdade: o personagem central da história, vocacionado à medicina, só se compromete totalmente com sua vocação quando perdeu tudo inclusive e principalmente o maior amor de sua vida. Aí só lhe restou o que era dele, estava nele e só poderia ser feito por ele. Foi quando então até o rei o saudou como a um nobre.
É quando não resta mais nada à pessoa que sua vocação mostra toda sua força, pois na verdade é a única coisa que resta e é a primeira e mais importante de todas. Ela é o coringa que Deus deu para cada um de modo a capacitá-lo a ser vitorioso no jogo da vida.
24 julho 2005
Vocação não é profissão
A profissão é efeito da vocação e não o contrário. As profissões surgem e desaparecem. Cada profissão enquadra a inteligência dos que a ela se dedicam, já que nem tudo que uma pessoa tem a oferecer combina com o objetivo da profissão. Por isso, como toda pessoa tem mais a oferecer à vida do que qualquer profissão exige, há sempre uma significativa cota de frustração em toda profissão.
Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos -- gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade -- como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.
Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.
Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos -- gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade -- como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.
Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.
O surgimento da profissão
Uma profissão começa quando surgem pessoas dispostas a pagar pela sua existência e termina quando elas desaparecem.
O que motiva as pessoas a pagar por algo é sua utilidade. Vamos supor a medicina: num dia qualquer, alguém teve algum problema de saúde. Se não sarou sozinho ou morreu, apareceu alguém que procedeu de um certo jeito e contribuiu para sua restauração. Como estar vivo é melhor do que estar morto, os procedimentos associados à recuperação do doente passaram a ser imitados, não por todos, mas por aqueles capazes de prestar atenção no que era feito nesses casos.
Talvez nosso hábito de fumar tenha sido conseqüência de algo assim: os franceses observaram feiticeiros inalando fumaça de gravetos nos quais punham fogo e chupavam e imitaram. Mas os feiticeiros faziam isso provavelmente acreditando que seriam capazes de curar pessoas introduzindo nelas o mesmo o princípio capaz de eliminar tudo – o fogo. Chupar graveto com ponta fumegante seria o mesmo que encher-se de fogo, tornando-se semelhante, por momentos, ao mais superior e mágico dos elementos, cuja propriedade principal é tornar tudo semelhante a si.
Com o passar do tempo e acúmulo de experiência, a associação entre certos procedimentos e a geração de saúde vai naturalmente desencadeando a separação de algumas pessoas da comunidade das demais. A estas a comunidade concorda em obedecer nos casos específicos de necessidade de restauro da saúde; depois na manutenção da saúde e finalmente a comunidade os quer para prevenir doenças ou para garantir que ele lá estará em caso de doença. A ponta final do processo é o surgimento de indivíduos e até de uma classe de pessoas habilitadas ao ofício cujo fim é a cura ou manutenção da saúde.
Quando uma comunidade está interessada num número crescente de coisas, não quer dizer que cada indivíduo também esteja interessado em todas essas coisas. Uns sim, outros não. Uma vez que algo adquira importância, é natural que o número de interessados por ela aumente. Porém, toda comunidade se interessa por coisas reais ou que se creiam reais. E é só por tais coisas que as pessoas pagam. Quando alguém cai num golpe e compra o Viaduto do Chá, ou quando compra um carnê que promete prêmio que nunca virá e demais coisas que só lhes tiram dinheiro e posses, não o fazem senão porque supõem estar pagando por coisas reais. A razão de sua conduta é o interesse por algo que lhes parece real, ainda que não o seja. Só que, nesses casos o que aconteceu é que alguns agiram imitando os “verdadeiros” profissionais, isto é, aqueles em que a comunidade deposita fé. Mas mesmo as práticas dos que assim agem, atuando sobre a mente dos desavisados, fazem surgir novas profissões ao mesmo tempo que reforçam outras.
Em todo esse processo de surgimento de profissão, algo me parece indiscutível: todas começam com um sujeito apenas -- o sujeito vocacionado a ela. Os seguintes, imitam seus procedimentos, melhorando-os, aperfeiçoando-os.
O que motiva as pessoas a pagar por algo é sua utilidade. Vamos supor a medicina: num dia qualquer, alguém teve algum problema de saúde. Se não sarou sozinho ou morreu, apareceu alguém que procedeu de um certo jeito e contribuiu para sua restauração. Como estar vivo é melhor do que estar morto, os procedimentos associados à recuperação do doente passaram a ser imitados, não por todos, mas por aqueles capazes de prestar atenção no que era feito nesses casos.
Talvez nosso hábito de fumar tenha sido conseqüência de algo assim: os franceses observaram feiticeiros inalando fumaça de gravetos nos quais punham fogo e chupavam e imitaram. Mas os feiticeiros faziam isso provavelmente acreditando que seriam capazes de curar pessoas introduzindo nelas o mesmo o princípio capaz de eliminar tudo – o fogo. Chupar graveto com ponta fumegante seria o mesmo que encher-se de fogo, tornando-se semelhante, por momentos, ao mais superior e mágico dos elementos, cuja propriedade principal é tornar tudo semelhante a si.
Com o passar do tempo e acúmulo de experiência, a associação entre certos procedimentos e a geração de saúde vai naturalmente desencadeando a separação de algumas pessoas da comunidade das demais. A estas a comunidade concorda em obedecer nos casos específicos de necessidade de restauro da saúde; depois na manutenção da saúde e finalmente a comunidade os quer para prevenir doenças ou para garantir que ele lá estará em caso de doença. A ponta final do processo é o surgimento de indivíduos e até de uma classe de pessoas habilitadas ao ofício cujo fim é a cura ou manutenção da saúde.
Quando uma comunidade está interessada num número crescente de coisas, não quer dizer que cada indivíduo também esteja interessado em todas essas coisas. Uns sim, outros não. Uma vez que algo adquira importância, é natural que o número de interessados por ela aumente. Porém, toda comunidade se interessa por coisas reais ou que se creiam reais. E é só por tais coisas que as pessoas pagam. Quando alguém cai num golpe e compra o Viaduto do Chá, ou quando compra um carnê que promete prêmio que nunca virá e demais coisas que só lhes tiram dinheiro e posses, não o fazem senão porque supõem estar pagando por coisas reais. A razão de sua conduta é o interesse por algo que lhes parece real, ainda que não o seja. Só que, nesses casos o que aconteceu é que alguns agiram imitando os “verdadeiros” profissionais, isto é, aqueles em que a comunidade deposita fé. Mas mesmo as práticas dos que assim agem, atuando sobre a mente dos desavisados, fazem surgir novas profissões ao mesmo tempo que reforçam outras.
Em todo esse processo de surgimento de profissão, algo me parece indiscutível: todas começam com um sujeito apenas -- o sujeito vocacionado a ela. Os seguintes, imitam seus procedimentos, melhorando-os, aperfeiçoando-os.
21 julho 2005
A vocação espiritual do homem - II
Nem sempre é fácil tirar conseqüências práticas de textos como o "A vocação espiritual do homem", que escrevi há uns dias . Por isso, retomo o assunto: quando digo “espiritual”, quero dizer “o que é próprio do homem, o que é exclusivo da inteligência do homem”.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.
O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.
A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.
A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.
Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.
Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.
Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto...Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.
O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.
A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.
A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.
Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.
Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.
Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto...Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.
09 julho 2005
A vocação do sapateiro
A prática da atividade vocacionada mostra seu real valor em situações em que a pessoa esteja passando por sérias dificuldades. Nessas horas é que surge com mais força a pergunta: “O que posso fazer para superar as dificuldades?” A resposta é: “Faça a expressão de sua vocação”.
Foi o que aconteceu com ex-sapateiro, meu vizinho. Surgiram nos shoppings as chamadas sapatarias do futuro. Ele e grande número de sapateiros viram-se sem emprego de uma hora para outra. Para não ficar em casa brigando com a mulher, ele decidiu que daria uma volta de ônibus longa todo dia, indo até o centro da cidade, mesmo que não tivesse nada o que fazer lá. Um dia, observou um homem e seu cachoro. Foi pra casa, pegou uns restos de couro que possuía e fez algumas coleiras, usando também metal para enfeitá-las. Ofereceu-as a um dono de pet shop no shopping, que pediu que ele fizesse mais vinte. Tornou-se fornecedor desta loja, que foi a primeira das diversas que hoje atende. Tanto que teve de mudar sua oficina, de sua casa para uma nova instalação fora de casa, justamente num shopping!
Cada um tem seus problemas, mas antes de tê-los, é dotado de vocação para alguma coisa. Aí é questão de descobrir um modo de solucionar seus problemas com o produto de sua atividade vocacionada.
Foi o que aconteceu com ex-sapateiro, meu vizinho. Surgiram nos shoppings as chamadas sapatarias do futuro. Ele e grande número de sapateiros viram-se sem emprego de uma hora para outra. Para não ficar em casa brigando com a mulher, ele decidiu que daria uma volta de ônibus longa todo dia, indo até o centro da cidade, mesmo que não tivesse nada o que fazer lá. Um dia, observou um homem e seu cachoro. Foi pra casa, pegou uns restos de couro que possuía e fez algumas coleiras, usando também metal para enfeitá-las. Ofereceu-as a um dono de pet shop no shopping, que pediu que ele fizesse mais vinte. Tornou-se fornecedor desta loja, que foi a primeira das diversas que hoje atende. Tanto que teve de mudar sua oficina, de sua casa para uma nova instalação fora de casa, justamente num shopping!
Cada um tem seus problemas, mas antes de tê-los, é dotado de vocação para alguma coisa. Aí é questão de descobrir um modo de solucionar seus problemas com o produto de sua atividade vocacionada.
05 julho 2005
Vocação e vida
Quer saber se o que você está fazendo é manifestação pura e simples de sua vocação ou não? Então responda às seguintes perguntas:
a) você entende do que faz?
b) você gosta do que faz?
c) você acha que o que faz é responsabilidade sua?
Se a resposta às três questões for “sim!”, então trata-se de vocação; caso contrário, não.
Você, eu e praticamente todo mundo pensamos saber exatamente o que é conhecimento, sentimento e vontade. Mas tente definir precisamente. Você sabe mesmo? Só que para realmente entender o que é vocação é preciso saber o que são essas coisas com clareza.
a) você entende do que faz?
b) você gosta do que faz?
c) você acha que o que faz é responsabilidade sua?
Se a resposta às três questões for “sim!”, então trata-se de vocação; caso contrário, não.
Você, eu e praticamente todo mundo pensamos saber exatamente o que é conhecimento, sentimento e vontade. Mas tente definir precisamente. Você sabe mesmo? Só que para realmente entender o que é vocação é preciso saber o que são essas coisas com clareza.
Conhecimento é uma palavra que reúne duas noções: a de ser e a de união entre seres. Por exemplo: vejo pela primeira vez um monte de pedras. Não sei a diferença entre uma e outra, já que não conheço pedras. Mas por qualquer motivo – agradar a uma pessoa querida que se interessa por pedras, curiosidade, falta do que fazer – começo a estudar as pedras e a entender o que são, o que as distingue umas das outras e assim por diante. As pedras vão deixando de ser uma coisa estranha para mim: basta eu olhar que já sei distinguir uma da outra. O ser ao qual se dá o nome pedra passou a estar ligado ao meu ser, deixou de ser algo estranho para mim para ser parte integrante de mim, isto é, de minha mente, de minha inteligência. Possuo agora na minha mente uma representação intencional da pedra, que é tão pedra em minha mente quanto a pedra é pedra no mundo exterior.
O termo conhecimento, portanto, resume todo esse processo de transformação de duas coisas (eu e a pedra) em uma só. Antes, eram dois seres diferentes, sem ligação nenhuma e, agora, não deixam de ser dois seres diferentes, porém com uma ligação entre eles: à pedra exterior corresponde a essência da pedra que está na minha mente. Agora, estão unidos (cum) dois seres (esse), o que dá cum + esse, de onde vem conhecer. Conhecimento significa o ato de conhecer.
Sentimento é o resultado de alterações provocadas em mim por alguma coisa externa à minha consciência. Tem coisa que eu conheço aqui e agora, eu sei que conheço, e por isso não constitui para mim novidade. Acontece que, de vez em quando, surge uma informação que é nova para mim e ela me modifica; mas me modifica não só nesta ou naquela parte do corpo, mas globalmente. Quando a modificação é nesta ou naquela parte do corpo trata-se de sensação; quando é global, a ponto de eu não poder dizer que é nesta ou naquela parte do corpo, trata-se de sentimento. Portanto, “sentir é ser afetado”; é ser globalmente alterado por uma certa novidade, é ser alterado “por dentro” de mim mesmo. Dependendo do tipo de alteração, adoto um nome que serve para distingui-la: tristeza, alegria, saudade, depressão, contentamento, e assim por diante.
Vontade é a capacidade que possuo para desencadear efeitos; mas somente os efeitos cuja causa sou eu mesmo. Por exemplo, pego esta chave e tranco a porta; com tal ação provoquei um certo efeito que será conhecido tão logo alguém queira entrar nesta sala. Mas este efeito, que denomino “a porta está trancada” não é causado por mim, e sim pelo esquema mecânico próprio do uso da chave na fechadura da porta. A chave,no entanto, não iria sozinha meter-se na fechadura da porta. É preciso que ela seja transportada até lá por alguém. Eu sou aquele que quis fazê-lo. A primeira causa de a porta estar trancada fui eu, foi a minha vontade; a causa mecânica é apenas um de seus resultados. Em última instância, sou eu quem está no início, na ponta da linha; fui eu quem desencadeou todos os demais efeitos de a porta estar trancada como alguém tentar entrar, desistir e ir fazer outra coisa. A primeira causa sou eu. E vontade é justamente esta capacidade para ser a causa primeira dos efeitos que se seguirão. Assim, o ato da vontade, por ter como causa primeira o próprio sujeito, é sempre criativo. Eu tive vontade de fazer algo e criei o modo de fazê-lo.
Portanto, vocação é a reunião, num ato só, de conhecimento, sentimento e vontade.
Conhecer mas não gostar do que conhece, nem ter vontade de fazer algo com o que se conhece, não é vocação mas apenas um de seus componentes. É aptidão: conheço, sei fazer, mas não me importo com o assunto nem quero me envolver. Por exemplo se na minha casa todo mundo toca algum instrumento e, por isso, eu entendo de música, sei quando há desafinação ou algo está fora do ritmo, mas nunca quero tocar qualquer instrumento, então tenho aptidão para música mas não vocação.
Pode ocorrer o contrário: gosto de música, quero tocar um instrumento, mas não sei fazê-lo. Preciso estudar violão, por exemplo. Já no primeiro mês estou tocando mais e melhor do que a maioria que estuda há mais tempo. Passa o tempo e já supero os alunos mais antigos. Por que isso acontece? Porque gosto (sentimento), quero (vontade) e conheço (conhecimento, razão) com muita facilidade aquele assunto.
Claro que, partindo desta base tríplice de conhecimento, sentimento e vontade, é possível fazer distinções técnicas cada vez mais precisas. Por exemplo, há um certo conhecimento que parece não ter nenhuma origem, já que se manifesta na pessoa desde muito criança, quando ela não teve ainda nenhuma instrução e treinamento formal a respeito do assunto. Há outros conhecimentos que resultam de aprendizado, seja em casa, seja na escola. Por isso as expressões “aptidão ou conhecimento inato ou adquirido”, que esclarecem se a pessoa “já nasceu sabendo” aquilo ou não.
Para saber se o que acabei de explicar é verdadeiro, tem que ser confirmado por fatos, como por exemplo estar presente no discurso de alguém que conheça este assunto e o exponha com outras palavras. É justamente o que acontece no artigo do Consultor Organizacional Roberto Shinyashiki cujo título é “Vocação". Ele escreveu:
“Por mais que escolha a profissão de acordo com a sua vocação, haverá
inúmeras tarefas que não são fáceis de cumprir, mas que você realizará
por amor e por respeito à sua missão e às pessoas que dependem de sua
competência.”
“Respeito à missão” é o mesmo que conhecimento da razão determinante; “amor” é produto da vontade e “respeito às pessoas que dependem de sua competência”, sentimento.
Qualquer que seja a atividade a que a pessoa se dedique, ela pode fazê-lo de maneira vocacionada ou não. Porém, há certas atividades que se mostram ser ocasião propícia para que uma pessoa aja vocacionadamente. Esta ocasião, quando ocorre no campo profissional, é a profissão ideal ou compatível com a vocação.
Há em cada pessoa um conhecimento que se manifesta desde muito cedo, e continua presente nas diversas atitudes que vai tomando durante sua vida. Quando os motivos destas atitudes são valorizados e a eles fornecido o aporte cultural adequado, a pessoa é feliz; caso contrário, não. Nem todas as pessoas têm força de vontade suficiente para enfrentar os obstáculos colocados pelo meio ambiente às suas atitudes, as quais manifestam sua vocação, ou um de seus fortes componentes. O cantor Elton John é um exemplo: além de cantor é compositor, arranjador e pianista. Seu pai era um banqueiro, o qual se opunha veementemente à idéia de que ele se tornasse músico – “música não dá dinheiro”. Seu pai queria que ele ganhasse dinheiro e não enxergava outro melhor meio para isso do que seu ingresso, de corpo e alma, no mercado financeiro.
De fato, não é totalmente infundada a idéia de que música não dá dinheiro, já que na grande maioria dos casos, a vocação musical não se acompanha de aptidão ou mesmo de vocação ao comércio. Não no caso de Elton John. Entre ganhos, lucros e dívidas, ele movimenta fortunas (porque o sujeito que consegue lidar com dívidas muito altas mostra que tem capacidade de lidar com altas cifras, pois nenhum banco empresta dinheiro para você se você não mostrar que tem capacidade de gerar quantidade de dinheiro equivalente).
A vocação de Elton John para a música é imensa e, além disso, não exclui sua participação na vocação familiar, isto é, na vocação ao comércio. De modo que ao contrário do que o pai julgava, ele conseguiu ganhar muito dinheiro com a música.
A vocação não é algo que possa ser ligado ou desligado à vontade. Na verdade, ela nunca está desligada. O que acontece muito é tal assunto não estar claro para a maioria das pessoas insatisfeitas com a própria vida e que ignoram o que fazer para mudá-la para melhor. Por isso, naquele mesmo artigo, Shinyashiki escreve:
“Não importa qual a sua idade, é sempre importante dar uma pausa na
correria do trabalho para analisar se você está realizando a sua
vocação.”
Porque vocação e vida são termos praticamente sinônimos. A vida é um eterno acontecer, onde se destacam aqui e ali um estado de alma, uma decisão ou um ato de conhecer. É que a vida, por ser essencialmente dinâmica, e o homem um ser finito e corpóreo, permite a manifestação intensa de cada uma dessas coisas não de maneira simultânea, mas alternada. Mas, olhando bem, analisando bem, passando um pente fino nas atitudes próprias ou alheias, vê-se que lá estão presente conhecimento, amor e sentimento, ou, nas palavras de Shinyashiki, missão ou dever, realização e respeito, formas diferentes de se referir a conhecimento, vontade e sentimento, bem como à sua reunião.
04 julho 2005
A vocação espiritual do homem
Tudo que existe pode ser desejado ou amado por alguém.
Se amo uma pessoa, quero estar com ela, vê-la, ouvi-la, sempre. Se estou apaixonado, sinto que quero e posso entendê-la e até me sinto fazendo isso, se por acaso ela também gostar de mim. Mas não são apenas as pessoas que podem ser objetos de nosso amor. O homem é capaz de sentir-se do mesmo jeito por qualquer outra coisa.
O homem é a única criatura viva capaz de viver em qualquer lugar do planeta. Formigas, cães, gatos, pulgas, baratas, pernilongos: só os encontramos em determinados lugares, mas os homens -- eles estão em todos os lugares. É porque ele é capaz de se adaptar ou se acostumar com qualquer situação e de alterar qualquer ambiente e adaptá-lo a seus interesses.
Quando gosto muito de algo, quero mostrar para os outros para que também gostem. Mas você gosta de outras coisas, meu vizinho de outras ainda e assim sucessivamente por toda a humanidade de modo que tudo que existe é passível de ser amado, compreendido, sentido.
Ver é coisa mais ampla do que pegar. Minhas mãos permitem que eu pegue isto ou aquilo, mas minha visão permite que eu veja isto, mais aquilo, mais aquilo outro...Não há limite para a quantidade de coisas que eu posso ver.
De todos os órgãos dos sentidos, a vista é o que ocupa a posição mais elevada. Por isso é comparada ao que há mais nobre na inteligência do homem: a capacidade de ver, de enxergar coisas. Como para amar é preciso conhecer e para conhecer mais, ver mais, a criatura que mais consiga ver é a que mais encontra o que amar. Por isso o homem é capaz de amar mais do que qualquer outra criatura e também de amar toda e qualquer coisa.
Quando o sujeito vê algo espetacular, ele quer mostrar esta mesma coisa pra todo mundo. Este é um dos sentidos do “mito da caverna” de Platão: vivendo num mundo de penumbra e sombras, um homem escapa e vê o mundo exterior, a luz do sol e as cores, os movimentos e tudo o mais que existe fora da caverna. Volta para tentar mostrar aos outros que também podem ver o que ele viu. E mesmo que arrisque sua vida para convencê-los, não desiste do empreendimento.
Pela visão, posso “tocar” o que há de mais imaterial..
Entende-se vocação, tradicionalmente, como “chamamento”. “Algo” chama o homem para este ou aquele esquema de vida. Daí surgem os heróis de vários tipos e surgem contentamentos e descontentamento de toda espécie. Sendo o homem como é, capaz de enxergar mais do que qualquer outra criatura – mais distante até do que a águia, por exemplo, pois se esta enxerga longe, o homem enxerga mais longe ainda com suas lunetas, telescópios e microscópios – é natural colocar-se as eternas perguntas “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Em busca da resposta, em todas as épocas, o homem criou ciências; ciências que em épocas seguintes serão vistas como superstições, já que as mais atuais, são sentidas como mais perfeitas do que as anteriores. Nessa caminhada de ciência e tecnologia, a vida do homem se descomplica em alguns setores e se complica em outros.
Qual a condição na qual qualquer pessoa pode viver a experiência de esquecer-se de si mesmo, concentrar-se em algo que lhe é exterior e bem servir ao próximo? É justamente a vida profissional.
Quando você procura um profissional, não está interessado nos problemas pessoais que ele tenha, mas quer sua atenção, seu serviço, sua competência. E os terá, caso ele seja vocacionado para o que faz, já que a vocação é justamente a capacidade que o homem possui para relacionar-se com a vida e imitar, nesta relação, o desapego que ocorre sempre que se está diante do que mais ama, quer e é apto a entender.
Quanto mais compatível com a vocação pessoal é a profissão escolhida, mais se fundem o amor e o trabalho, uma coisa passando a existir por causa da outra. Pois todo trabalho é feito em virtude do bem de alguma outra pessoa, do mesmo modo que se estou apaixonado, todos os meus pensamentos são para a minha amada.
É compreensível, então, porque pensamos logo em profissão, quando falamos em vocação. E mais, passamos logo a considerar que é coisa de interesse para o adolescente apenas. Porque presume-se que o adulto, já instalado em sua condição profissional, escolheu algo que ele é capaz de entender, de querer e até de amar. Tanto é que consegue cuidar, com seu trabalho, de mais pessoas do que aquelas que é capaz de vir a conhecer durante toda sua vida.
Tudo isso só é possível ao homem. E o termo que se usa para manifestar algo só presente no homem e em nenhuma outra criatura é “espírito”. Por isso, é correto dizer que é através da sua vocação pessoal que cada pessoa é capaz de realizar a verdadeira vocação espiritual do homem.
Se amo uma pessoa, quero estar com ela, vê-la, ouvi-la, sempre. Se estou apaixonado, sinto que quero e posso entendê-la e até me sinto fazendo isso, se por acaso ela também gostar de mim. Mas não são apenas as pessoas que podem ser objetos de nosso amor. O homem é capaz de sentir-se do mesmo jeito por qualquer outra coisa.
O homem é a única criatura viva capaz de viver em qualquer lugar do planeta. Formigas, cães, gatos, pulgas, baratas, pernilongos: só os encontramos em determinados lugares, mas os homens -- eles estão em todos os lugares. É porque ele é capaz de se adaptar ou se acostumar com qualquer situação e de alterar qualquer ambiente e adaptá-lo a seus interesses.
Quando gosto muito de algo, quero mostrar para os outros para que também gostem. Mas você gosta de outras coisas, meu vizinho de outras ainda e assim sucessivamente por toda a humanidade de modo que tudo que existe é passível de ser amado, compreendido, sentido.
Ver é coisa mais ampla do que pegar. Minhas mãos permitem que eu pegue isto ou aquilo, mas minha visão permite que eu veja isto, mais aquilo, mais aquilo outro...Não há limite para a quantidade de coisas que eu posso ver.
De todos os órgãos dos sentidos, a vista é o que ocupa a posição mais elevada. Por isso é comparada ao que há mais nobre na inteligência do homem: a capacidade de ver, de enxergar coisas. Como para amar é preciso conhecer e para conhecer mais, ver mais, a criatura que mais consiga ver é a que mais encontra o que amar. Por isso o homem é capaz de amar mais do que qualquer outra criatura e também de amar toda e qualquer coisa.
Quando o sujeito vê algo espetacular, ele quer mostrar esta mesma coisa pra todo mundo. Este é um dos sentidos do “mito da caverna” de Platão: vivendo num mundo de penumbra e sombras, um homem escapa e vê o mundo exterior, a luz do sol e as cores, os movimentos e tudo o mais que existe fora da caverna. Volta para tentar mostrar aos outros que também podem ver o que ele viu. E mesmo que arrisque sua vida para convencê-los, não desiste do empreendimento.
Pela visão, posso “tocar” o que há de mais imaterial..
Entende-se vocação, tradicionalmente, como “chamamento”. “Algo” chama o homem para este ou aquele esquema de vida. Daí surgem os heróis de vários tipos e surgem contentamentos e descontentamento de toda espécie. Sendo o homem como é, capaz de enxergar mais do que qualquer outra criatura – mais distante até do que a águia, por exemplo, pois se esta enxerga longe, o homem enxerga mais longe ainda com suas lunetas, telescópios e microscópios – é natural colocar-se as eternas perguntas “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Em busca da resposta, em todas as épocas, o homem criou ciências; ciências que em épocas seguintes serão vistas como superstições, já que as mais atuais, são sentidas como mais perfeitas do que as anteriores. Nessa caminhada de ciência e tecnologia, a vida do homem se descomplica em alguns setores e se complica em outros.
Qual a condição na qual qualquer pessoa pode viver a experiência de esquecer-se de si mesmo, concentrar-se em algo que lhe é exterior e bem servir ao próximo? É justamente a vida profissional.
Quando você procura um profissional, não está interessado nos problemas pessoais que ele tenha, mas quer sua atenção, seu serviço, sua competência. E os terá, caso ele seja vocacionado para o que faz, já que a vocação é justamente a capacidade que o homem possui para relacionar-se com a vida e imitar, nesta relação, o desapego que ocorre sempre que se está diante do que mais ama, quer e é apto a entender.
Quanto mais compatível com a vocação pessoal é a profissão escolhida, mais se fundem o amor e o trabalho, uma coisa passando a existir por causa da outra. Pois todo trabalho é feito em virtude do bem de alguma outra pessoa, do mesmo modo que se estou apaixonado, todos os meus pensamentos são para a minha amada.
É compreensível, então, porque pensamos logo em profissão, quando falamos em vocação. E mais, passamos logo a considerar que é coisa de interesse para o adolescente apenas. Porque presume-se que o adulto, já instalado em sua condição profissional, escolheu algo que ele é capaz de entender, de querer e até de amar. Tanto é que consegue cuidar, com seu trabalho, de mais pessoas do que aquelas que é capaz de vir a conhecer durante toda sua vida.
Tudo isso só é possível ao homem. E o termo que se usa para manifestar algo só presente no homem e em nenhuma outra criatura é “espírito”. Por isso, é correto dizer que é através da sua vocação pessoal que cada pessoa é capaz de realizar a verdadeira vocação espiritual do homem.
03 julho 2005
Posso deixar minha criança sob os cuidados de Beth?
Apareceu na TV: a funcionária de uma creche maltratando algumas criancinhas. Todos os pais que deixam seus filhos em creches se perguntaram: “É prudente deixar as crianças sob os cuidados de Beth?” Foi a pergunta que me fez a orientadora de uma escola.
Mas devolvi a pergunta: Qual a sua opinião?
Ela respondeu que gostava de Beth e a achava adequada para a tarefa, mas pediu-me que fizesse seu perfil cognitivo, que apresento resumido:
“Beth tem facilidade inata para perceber suas chances em situações desafiantes. Possui nível de exigência com a linguagem acima da média e percebe instintivamente as contradições presentes no pensamento alheio. É extremamente atenciosa com aqueles com quem entra em relação. Tem grande capacidade de imaginação e por isso sempre antevê alguma satisfação pessoal mesmo naquilo que a frustra. E isso vale também para os outros -- consegue apontar o outro lado de uma experiência ruim. É criativa: não precisa de muito recurso material para ter confiança e segurança suficientes para dar início a alguma atividade que convenha a seus propósitos.”
O perfil cognitivo de Beth, portanto, parece compatível com atividades pedagógicas, onde tenha de ensinar e também ajudar cada criança a adquirir progressivamente confiança em si mesma.
O testemunho favorável, dado por quem a conhece, confirma sua adequação ao ofício de cuidar de crianças. O que demonstra que o que faz não é apenas porque entende do que faz, mas porque escolheu livremente e ama fazê-lo, as três marcas distintivas da conduta vocacionada.
Mas devolvi a pergunta: Qual a sua opinião?
Ela respondeu que gostava de Beth e a achava adequada para a tarefa, mas pediu-me que fizesse seu perfil cognitivo, que apresento resumido:
“Beth tem facilidade inata para perceber suas chances em situações desafiantes. Possui nível de exigência com a linguagem acima da média e percebe instintivamente as contradições presentes no pensamento alheio. É extremamente atenciosa com aqueles com quem entra em relação. Tem grande capacidade de imaginação e por isso sempre antevê alguma satisfação pessoal mesmo naquilo que a frustra. E isso vale também para os outros -- consegue apontar o outro lado de uma experiência ruim. É criativa: não precisa de muito recurso material para ter confiança e segurança suficientes para dar início a alguma atividade que convenha a seus propósitos.”
O perfil cognitivo de Beth, portanto, parece compatível com atividades pedagógicas, onde tenha de ensinar e também ajudar cada criança a adquirir progressivamente confiança em si mesma.
O testemunho favorável, dado por quem a conhece, confirma sua adequação ao ofício de cuidar de crianças. O que demonstra que o que faz não é apenas porque entende do que faz, mas porque escolheu livremente e ama fazê-lo, as três marcas distintivas da conduta vocacionada.
Perfil cognitivo do Presidente Lula
Por alguém gosta do Presidente Lula?
Dar resposta a esta questão é o mesmo que investigar a vocação de Lula.
A vocação dá a seu portador, quando agindo em concordância com ela, autoridade e notável eficiência no que faz. Autoridade não é algo subjetivo; ela afeta o público objetivamente e o público sabe reconhecê-la, o que cria eficiência no agir.
Em que setor da vida tais coisas acontecem tendo como centro o senhor Luiz Inácio Lula da Silva? No setor em que a habilidade para atividade da representação é condição de eficiência.
Os fatos parecem confirmar: Lula conseguiu seu maior êxito quando resolveu deixar de lado as próprias convicções e aceitou apenas representar um papel capaz de cair no gosto do maioria. Foi aí que conseguiu ser eleito Presidente da República.
A exposição de seu perfil cognitivo fornece elementos capazes de aumentar a compreensão de minha resposta.
O que se observa em Lula é que ele:
a) tem percepção muito clara de si mesmo, a ponto de não experimentar dúvidas a respeito de quem seja ou do modo próprio de fazer as coisas. Tanto é assim que praticamente não consegue não improvisar em suas manifestações públicas, mesmo quando fortemente aconselhado a não fazê-lo;
b) possui elevadíssima dose de confiança na própria competência para encenar todo e qualquer personagem que seja conveniente a seus propósitos;
c) possui enorme facilidade para dar expressão corporal a seus estados de espírito;
d) é dotado de poderosa imaginação, sendo capaz de ficar alheio às condições reais e concretas que o cercam.
Tais características são fundamentalmente compatíveis com ofícios ligados à arte da representação.
Tal arte tem vínculo mais forte com a situação real e concreta da sociedade à volta do indivíduo em função da força de seus conhecimentos. Quanto maior seu conhecimento e cultura, mais apto ele está para analisar as circunstâncias, sem distorcer tal análise devido a preferências pessoais e subjetivas. Quanto menor, mais o viés de suas preferências pessoais e sujetivas imperam, comprometendo sua visão do mundo real e diminuindo sua autoridade e eficiência.
Já poderíamos especular sobre o sucesso de Lula em sua arte, dado o seu nível cultural, mas o curso dos acontecimentos esclarecerá qual a condição real de compatibilidade da vocação de Lula para a arte de representar e a situação real e concreta à sua volta.
Dar resposta a esta questão é o mesmo que investigar a vocação de Lula.
A vocação dá a seu portador, quando agindo em concordância com ela, autoridade e notável eficiência no que faz. Autoridade não é algo subjetivo; ela afeta o público objetivamente e o público sabe reconhecê-la, o que cria eficiência no agir.
Em que setor da vida tais coisas acontecem tendo como centro o senhor Luiz Inácio Lula da Silva? No setor em que a habilidade para atividade da representação é condição de eficiência.
Os fatos parecem confirmar: Lula conseguiu seu maior êxito quando resolveu deixar de lado as próprias convicções e aceitou apenas representar um papel capaz de cair no gosto do maioria. Foi aí que conseguiu ser eleito Presidente da República.
A exposição de seu perfil cognitivo fornece elementos capazes de aumentar a compreensão de minha resposta.
O que se observa em Lula é que ele:
a) tem percepção muito clara de si mesmo, a ponto de não experimentar dúvidas a respeito de quem seja ou do modo próprio de fazer as coisas. Tanto é assim que praticamente não consegue não improvisar em suas manifestações públicas, mesmo quando fortemente aconselhado a não fazê-lo;
b) possui elevadíssima dose de confiança na própria competência para encenar todo e qualquer personagem que seja conveniente a seus propósitos;
c) possui enorme facilidade para dar expressão corporal a seus estados de espírito;
d) é dotado de poderosa imaginação, sendo capaz de ficar alheio às condições reais e concretas que o cercam.
Tais características são fundamentalmente compatíveis com ofícios ligados à arte da representação.
Tal arte tem vínculo mais forte com a situação real e concreta da sociedade à volta do indivíduo em função da força de seus conhecimentos. Quanto maior seu conhecimento e cultura, mais apto ele está para analisar as circunstâncias, sem distorcer tal análise devido a preferências pessoais e subjetivas. Quanto menor, mais o viés de suas preferências pessoais e sujetivas imperam, comprometendo sua visão do mundo real e diminuindo sua autoridade e eficiência.
Já poderíamos especular sobre o sucesso de Lula em sua arte, dado o seu nível cultural, mas o curso dos acontecimentos esclarecerá qual a condição real de compatibilidade da vocação de Lula para a arte de representar e a situação real e concreta à sua volta.
02 julho 2005
A pergunta fundamental
"Por que gostam de mim?" Esta é a pergunta que, quando respondida corretamente, permite a qualquer um conhecer qual é sua vocação. Sempre há alguém que realmente gosta de você e os motivos que a fazem gostar mostram o que há de fundamental em você. Isso vale também para se conhecer a vocação de uma outra pessoa -- os motivos pelos quais as pessoas gostam dela.É a partir daí que podemos saber se o ofício que escolheu é compatível com ela.
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