23 janeiro 2011

A Vocação Sobrenatural – IV

A recusa da caridade abre o coração para o domínio da depressão. Aquela aponta na direção da aproximação íntima com o outro; esta, na direção do afastamento.

A caridade é o amor por Deus, amor que o próprio Deus infunde no coração. A depressão, ao contrário, é a recusa de relacionamento com o outro.

Há dois tipos de depressão: a endógena e a exógena. A endógena é devido a causas hereditárias; a exógena, a causas acidentais advenientes.

A depressão exógena pode resultar da incapacidade para lidar com decepção afetiva, dificuldades financeiras, perda do vigor físico por doença ou acidente e assim por diante. Esta é “depressão psicológica”, enquanto que a endógena (hereditária), não.

Diz-se que algo é “psicológico” quando a pessoa é livre para decidir. Se a pessoa sofre uma frustração amorosa e se deixa deprimir ao ponto de perder o comando da própria vida, é porque ela assim decidiu. A depressão endógena não deixa escolha; a psicológica, sim.

Há, pois um denominador comum entre a depressão e a caridade: a vontade livre, que pode recusar ou aceitar uma ou outra. Se a pessoa recusa a caridade, isto é, recusa o serviço em favor do outro, ela, no mesmo ato, recusa o relacionamento com o outro – ela aceita o que é o conteúdo mesmo do conceito de depressão, “recusa do contato com o outro”.

Pelo fato de a alma poder afirmar a recusa do contato com o outro, quando a pessoa sente o insuportável desta situação, vai para o extremo oposto: enxerga no outro um meio eficiente para realizar o seu interesse. É o que se chama de “mania”: a pessoa, no íntimo, não tem interesse no contato com o outro mas precisa do outro para realizar seus objetivos. Uma pessoa assim consegue euforizar as pessoas e fazê-las se comportarem de maneira irresponsável; são capazes de fazerem as pessoas tomarem decisões que ofendem ao bom-senso; são capazes de fazê-las “brigar” pelo que, na verdade, as prejudica. Este tipo de característica é visível em criadores de seitas: conseguem tornar seus seguidores tão apaixonados por sua “liderança”, envolvê-los com o seu “carisma”, que só indivíduos realmente sinceros conseguem escapar desta espécie de dominação psíquica. Infelizmente nem sempre ocorre de a maioria dos seguidores perceberem isso a tempo de evitarem grandes males para suas vidas, tanto materiais quanto espirituais.

A caridade também tem a ver com vontade. Ela é uma graça de Deus e não resultado do esforço do homem, como é o caso das virtudes naturais. Porém, como toda graça de Deus, o homem é livre para recusá-la ou aceitá-la. De modo que o homem recusa ou aceita tanto a caridade quanto a depressão.

O hábito da prática da caridade é o antídoto por excelência contra o domínio da depressão.

Os Evangelhos descrevem com fartura condutas de Jesus que ilustram o que é caridade. Talvez por causa da suavidade com que Deus concede Suas graças, nem sempre fica visível à primeira vista quão excepcionais elas são. Um só exemplo por ora é suficiente para isto ficar claro. Recordemos o episódio quando João Batista enviou seus discípulos para Jesus para lhe perguntarem se Ele era o Messias ou se deviam aguardar a vinda de um outro. Ao invés de Jesus simplesmente dizer que era Ele o esperado, citou várias coisas que Ele e somente Ele ia fazendo: “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho” (Luc. 7, 22).

À primeira vista parece que o último testemunho da messianidade de Jesus aos discípulos de João Batista, o anúncio do Evangelho aos pobres, é coisa banal. Mas não é. Para percebê-lo, é suficiente notar que se há uma frase capaz de resumir o ensinamento total dos Evangelhos é “Deus é amor” (I Jo 4, 8).

O nome “amor” presume, necessariamente, duas pessoas. É um nome que contém dentro de si a noção de “dois”: uma pessoa diante de outra, amando-a. Quando digo que “amo tal coisa”, estou usando uma figura de linguagem; estou enfatizando que meu interesse é “quase tão intenso” quanto é naturalmente intenso o sentimento que só posso sentir por outra pessoa. Porque o nome amor significa uma pessoa diante de outra, amando-a. Ora, quando o evangelista diz “Deus é amor”, afirma algo que ninguém até então, desde os mais sapientes mestres e doutores ousaram afirmar porque não lhes era possível sabê-lo.

Ao longo dos séculos e milênios, foram-se acumulando saberes a respeito de Deus: que não pode haver dois mas somente um; que Ele é onipotente, onisciente, incriado; que Ele é a sabedoria; que todas as coisas existem só porque Ele existe e a todas sustenta; e assim por diante. Mas todo este acúmulo de conhecimento afirma conhecimento de Deus a partir dos efeitos, isto é, afirma conhecimento que resulta da dedução do que Deus é por causa de efeitos observáveis de Sua ação. Trata-se de conhecimento de Deus “desde fora” (ad extra), conhecimento que é possível ter de Deus “vendo-O” desde fora, “vendo-O” a partir dos efeitos do que Ele fez, faz e é capaz de fazer sempre. Mas quando o evangelista diz “Deus é amor”, não está se referindo ao conhecimento de Deus “desde fora”, mas “desde dentro” (ad intra). Porque o conhecimento de Deus “desde fora” é o conhecimento que o homem atinge porque as coisas existem. Por este tipo de conhecimento de Deus, pode-se dizer que ele tem amor – tem amor pelas criaturas, pelo que criou, mas não que ele é amor. Pode-se dizer que ele é maximamente poderoso ou onipotente, pois só quem é tal poderia criar coisas de tamanho tão díspares quanto são os tamanhos da terra, dos planetas, das estrelas, das galáxias; e também criar vida inteligente num planeta que é um menos que um grão de areia se comparado com estrelas enormes como Betelgeuse ou Aldebaran. De todas essas coisas é possível deduzir: Deus é onipotente; Deus tem amor; Deus sabe tudo, é onisapiente e assim por diante. Mas e o fato de Deus ser amor? Sendo Ele de fato amor, por que nenhum sábio o disse? Por que nenhum filósofo atingiu tal conhecimento? A resposta é: porque só é possível saber isso diretamente e não por dedução. Tudo que se pode saber por dedução (pela aplicação da capacidade para raciocinar), o homem é capaz de saber. Mas há coisas que só podem ser conhecidas diretamente; para estas, a razão é impotante. Daí que saber que Deus é amor só é possível para o próprio Deus. E por isso somente o próprio Deus é capaz de fazer o milagre de tornar isso conhecido por alguém, pois como é sabido, “ninguém dá o que não tem”.

A pujança do milagre de conhecer que “Deus é amor” mostra-se em sua tremenda força quando a menor das criaturas no aspecto social, intelectual, cultural, etc. – o pobre – é elevada a este conhecimento. Porque o pobre vive um tipo de vida que força sua mente a dedicar-se a coisas “práticas”, diretamente relacionadas com o comer, o vestir e o morar; ele não tem tempo para ficar especulando a respeito de coisas abstratas, que não garantem a sobrevivência física. De que adianta ele saber que o tamanho do sol é mais do que mil vezes o tamanho da terra? Que o tamanho de aldebaran é mais de mil vezes o tamanho do sol? Que os sentidos são distintos do intelecto? Nenhum desses conhecimentos é “prático”. Nada disso enche a panela de feijão ou de arroz. Mas é aí que surge o milagre: aos pobres, Deus ensina o que passou oculto à mente dos sábios e doutores, cujas vidas são dedicadas à investigação das causas supremas das coisas. “Deus é amor”: este é um conhecimento que só Deus possui e, porque Ele o possui, pode dá-lo a quem quer e Ele o dá aos pobres, quer dizer, faz com que os menos capacitados para conhecerem o que quer que seja, conheçam o que os mais capacitados a conhecerem o que quer que seja nunca conheceram! Ensinar ao homem que um dos nomes de Deus é “caridade” – pois a informação “Deus é amor” pode ser dita “Deus é caridade”– é realizar um supremo milagre, talvez maior do que os que o precedem: cego ver, coxo andar, morto voltar à vida...Caridade é o nome do amor por Deus. Se amo meu filho, minha mulher, os sacerdotes através dos quais ingressei na Igreja pelo Batismo, pela Crisma, etc., este sentimento chama-se amor. Se o amor que sinto é por Deus, o nome deste sentimento não é amor, porém, caridade. A diferença entre um e outro é que, no caso dos primeiros, meu coração se move a eles porque deles eu gosto; no segundo caso, não preciso gostar daqueles a quem faça o bem. No mais das vezes o amor cultiva a esperança de reciprocidade; a caridade, não.

Amor, caridade...são termos duais, presumem, no mínimo, duas pessoas. É o que liga essas duas pessoas, uma à outra. Portanto, a virtude da caridade é a garantia imorredoura de que o homem nunca esteja só. Sobre o primeiro pai, Deus o olhou e disse “não é bom que o homem esteja só” (Gên. 2, 18), com isto ficando significado que, por uma questão de estrutura, de constituição (de “matriz”, como se diria hoje em dia), a estrutura psicológica do homem exige que ele se relacione com um outro igual a ele. Jesus, por pura caridade, introduziu um novo elemento na estrutura do ser: o homem, por meio de uma graça de Deus, pela graça da caridade, é elevado a uma condição tal que se torna capaz de estar na companhia não somente do igual a ele, um outro ser humano, mas na companhia do desigual a ele, isto é, na companhia de Deus. Porque a caridade é uma virtude (ou vocação) sobrenatural e é dom de Deus, isto é, o homem não a possui por causa de algum mérito, mas tão somente por causa da misericórdia de Deus.

A diferença entre amor e caridade pode ser assim exemplificada: um filho adoece e sua mãe deseja ardentemente que ele sare e no seu coração existe a disposição de dar sua vida por ele. Suponha que isto signifique doar-lhe o próprio coração. De bom grado ela é capaz de fazer isso, tamanho o amor que sente por ele. Mas ao fazer isso – digamos que ela o faça – ela morre, pois dar-se ao ele significa sua morte. Mas a caridade, que é o amor por Deus, possui outra característica: se morremos por Deus, na verdade, o que conseguimos com isso é a vida em sua expressão plena. De modo que o extremo do amor humano, natural, pode ser a morte; mas o amor de caridade é a vida e a garantia da posse de um corpo que não mais morre. Pois ela não é algo do homem para Deus, mas sim algo que Deus oferece ao homem para que este a ofereça a Ele.

E a depressão, o que é? É o desejo de afastar-se do outro! A pessoa deprimida, no sentido patológico do termo, deseja afastar-se permanentemente do outro. Este desejo de afastar-se do outro, no deprimido, pode assumir tamanha força que ele acaba suicidando, tão logo tenha força para tanto. Este infausto acontecimento ocorre quando a pessoa deprimida começa a sair deste estado e ir para o seu oposto, para o estado de mania. Nessa hora, faltando motivo para viver – faltando a caridade – o infausto acontece: suicídio.

Com relação ao tempo, a fé se analoga ao passado, a esperança ao futuro. A caridade, ao presente, pois é no presente que a vontade atua concretamente. A caridade impele a vontade ao bem verdadeiro, sem que entre em questão a clareza da fé ou a firmeza da esperança.

Mais coisas há para dizer sobre a caridade, o que ainda será feito.

Joel Nunes dos Santos, em 20 de janeiro de 2011.

17 abril 2006

A família e a vocação - Lição 2

A necessidade de carinho, atenção, aconchego, presente no homem, não é exclusiva do homem. Ela está presente também no animal.

O que aprendi a conhecer na prática. Eu costumava ir uma ou duas vezes por mês ao sítio de um amigo, também psicólogo. Havia lá no sítio uma vaca (Fortuna) e dois bezerros (Potoco e um outro cujo nome não me lembro). Fortuna pariu Potoco. Para que este não ficasse sozinho, o amigo comprou o “outro-cujo-nome-não-me-lembro”. Fortuna, porém, só deixava Potoco mamar em suas tetas; o outro, não. Curiosamente (para mim, pelo menos), Potoco foi se tornando um bezerro dócil, amável, que bastava alguém chamá-lo pelo nome que ele atendia. O outro, rejeitado, foi desenvolvendo uma personalidade de maloqueiro; tão logo atingiu tamanho suficiente, passou a dar preferência a trilhas que nem Fortuna, nem Potoco nem nós, seres humanos, costumávamos usar. Eram locais locais perigosos, por serem ribanceiras, estarem próximas à margem do riacho que corria no plano abaixo daquelas trilhas, vegetação cerrada que poderia ser ninho de cobras...Até que aconteceu de ele cair numa ribanceira, quebrar a perna e ter de ser sacrificado. Suas carnes foram doadas a uma instituição local que cuidava de pessoas carentes, pois o amigo disse: “Maloqueiro ou não, era tanto membro da família quanto Fortuna e Potoco. Não poderia comer suas carnes.”

Por isso se diz que quando os pais dão atenção e carinho aos filhos, não são merecedores de elogios; quando nem isso dão, tornam-se merecedores dos mais severos vilipêndios. Pois aí o que se está recusando não é o amor, mas algo de natureza inferior, uma vez que é coisa necessária até aos animais, cuja recusa distorce sua personalidade.
Se os animais, portadores de inteligência limitada, apreendem as intenções que os seus pares têm com relação a eles, quanto mais o ser humano, ainda que bebê. A limitação mesma da inteligência do animal permite, em muitos casos, a reversão dos efeitos de uma infância problemática. Ajuda neste processo o fato de ele ao nascer estar pronto para a vida, num grau tal que o homem, para atingir tal nível de prontidão, precisaria permanecer no útero materno quase que o dobro do tempo em que lá permanece. Mas tais distorções, uma vez ocorridas no homem, em seus inícios, não prometem reversão, mas condicionam os desdobramentos futuros de toda sua personalidade.

Devido a esta não-prontidão biológica do bebê humano, é necessário elevada dose de persistência na atenção e carinho para com ele. E em resultado também dessa não-prontidão, sua resposta global aos estímulos mantém-se como padrão por mais anos do que seria admissível em organismos já plenamente desenvolvidos, como se dá com os animais.

O primeiro impacto da família sobre a vocação se dá, portanto, em virtude da maneira como os pais estabelecem relações presenciais com sua criança. A linguagem no sentido humano do termo, a linguagem articulada, conta pouco. O que conta é a linguagem significada pelo modo de presença, pelas atitudes que os adultos – no caso, os pais – adotam para com a criança. Caso falte o amor, é difícil supor que haja atenção, carinho, aconchego, e demais condutas que atendem a necessidades físicas e psicológicas do homem na sua segunda fase de existência (a primeira é a fase intra-útero).

Para maior clareza a respeito da reação global de toda a personalidade pelo bebê, basta ter em mente que é só na primeira e segunda fase de sua existência que o homem pode, por um só ato da mãe, ser atendido em todas as suas necessidades físicas e psicológicas. Só na primeira e segunda fases de sua existência é possível o atendimento simultâneo de tais necessidas. Com o amadurecimento biológico, calcificação dos ossos, especialização dos sentidos, etc., o atendimento de tais necessidades só pode dar-se sucessivamente, quer dizer, ou se aconchega a criança, ou a alimenta, as duas coisas não podendo ser feitas de uma só vez. Vejamos como se dá isso.

Quando a mãe amamenta o bebê, atende necessidades que vão da ordem física até a ordem psicológica. Discriminando o que é atendido:

- a necessidade que tem o organismo de ter sua temperatura aumentada ou preservada, o que resulta do contato do corpo da mãe com o do bebê no ato de amamentar. (Tenha-se em mente que temperatura é objeto de estudo da Física); - a necessidade de absorção, pelo organismo, de nutrientes (cujo estudo são objetos de estudo da Química e da Biologia);
- a necessidade de proteção contra os diversos e incompreensíveis estímulos exteriores à consciência (o que é objeto da Psicologia). Aqui incluem-se também a ritmação do pulso cardíaco do bebê, o que os batimentos cardíacos da mãe proporcionam, bem como seus cantos e palavras ternas e carinhosas. E outras particularidades que possam ser aqui arroladas.

Como o homem é a criatura capaz de privilegiar o bem do outro em detrimento de si mesmo – capacidade cujo nome é amor – a intenção de acolhimento do filho permanece real muito além de qualquer limite físico. No caso dos animais, do cão por exemplo, o instinto de cuidar da mãe permanece enquanto estão presentes em sua corrente sangüínea certos hormônios que condicionam seu attachment. O esvaimento desses hormônios coincidem com a maturação muscular da cria, quando então ela passa a ser vista como concorrente. Que a partir deste momento a cria não tente comer a comida da sua mãe!... No homem, este attachment prossegue para além da vida física, para além da morte, na verdade.

Portanto, a presença, amorosa ou não dos pais, condiciona o desenvolvimento adequado ou desviado da vocação de seu filho, já que a vocação possui como um de seus componentes fundamentais a herança psicogenética e sua especialização durante os longos anos em que a linguagem verdadeiramente articulada está ausente da inteligência do homem.

Retificação: Onde se lê "Sua inteligência (causa eficiente de suas ações) não atua em vista do bem (causa final), mas por causa de algum tipo de ressentimento e desejo de vingança.", deve-se ler "Sua vontade (causa eficiente de suas ações) não atua em vista do bem (causa final, o qual é fornecido pela inteligência), mas por causa de algum tipo de ressentimento e desejo de vingança." (21/04/2006)

30 março 2006

A família e a vocação - Lição 1

Maria Sonia escreveu-me:


"Sr. Joel, gostaria de sugerir que V.Sa. discorra, a miúde, sobre as influências, negativas ou positivas, que os pais possam ter sobre a educação dos filhos. E o que isso pode acarretar para a vida adulta destes filhos. Outrossim, como o exemplo dos pais pode ou não influênciar no desenvolvimento vocacional dos filhos."

Para atender a tão pertinente sugestão, passarei a escrever alguns artigos que aclarem meu pensamento a respeito da relação entre a família e a vocação pessoal do indivíduo.

Para tanto, pareceu-me adequado imitar a forma de textos que li na época da faculdade e que tanto me ajudaram na compreensão de muitas das questões que irão surgindo nos artigos que irão se sucedendo. Vou chamar cada artigo de “Lição”. Pelo número da lição, será possível fazer idéia do quanto já caminhei neste assunto.


Lição 1 – a questão da “reação global da personalidade”


Para uma adequada compreensão do que virá a seguir, um conceito deve ser assimilado de maneira clara e firme: o conceito de “reação global de toda a personalidade”. Por “global” quero dizer algo assim como “corpo e alma juntos”, já que a personalidade é composta de elementos físicos e não físicos, isto é, assimiláveis pelo que no homem há de corpóreo e incorpóreo. De modo que quero significar que “reação global de toda a personalidade” é a resposta (ou envolvimento) do sujeito inteiro (e não apenas uma parte sua) com o estímulo que o afeta (ou com a situação momentânea na qual se encontre).

A reação global de toda a personalidade ocorre quando a situação provoca no indivíduo a unificação do sentimento, da vontade e da inteligência. Esta unificação dá-se em várias situações, com destaque para as de amor e de medo extremo. Apenas para clareza do conceito, vou ilustrar recorrendo primeiro a uma situação de medo.

Há algum tempo (uns dois anos, talvez) um rapaz de São Paulo foi morto em uma entrada de favela no RJ. Ele foi ao RJ de carro para assistir a um jogo no Maracanã. Ao sair de lá, não conhecendo muito bem a cidade, entrou numa rua que conduzia a uma favela. Tão logo entrou lá, foi alvejado por balas, vindo a falecer.

Suponha que você, leitor, esteja num local parecido com aquele onde o rapaz foi morto. É noite e você está perdido, sem saber que direção tomar. Vê um ou outro morador do local olhando para você e sabe que se parar o carro e descer para obter alguma informação de como sair dali, caso a obtenha, sabe que ela não é confiável. Três coisas se passam no seu íntimo: sente que a situação em que está diz respeito exclusivamente a você; a fortíssima vontade de sair de lá o mais rápido possível; entende que está em perigo mortal. Portanto, nesta situação, dá-se a vivência da unidade composta de sentimento, vontade e entendimento.
Unificação parecida desses três aspectos da alma ocorre na vivência de amor, quando você se liga afetivamente a alguém que passa a ocupar o centro de seus interesses, ofuscando tudo o mais. Você então sente que tal pessoa é o objeto preferencial de sua atenção, ou seja, que ela é importantíssima para você; quer que ela o aceite; pensa o tempo todo em como fazer para ser correspondido em seu amor.

A dificuldade que nós adultos experimentamos em dar uma “resposta global” a algum estímulo resulta do fato de já terem-se realizado diferenciações em nossa inteligência. Adultos, somos capazes separar os vários componentes de uma mesma vivência e nos atermos a um ou outro deles. A criança, ao contrário, não é ainda capaz de operação mental deste tipo, por não ter ainda vivenciado os momentos em que vão se dando as diferenciações (ou mutações) em sua inteligência. Por isso, quanto mais novo o indivíduo, mais global é sua reação a estímulos. A reação de um bebê aos estímulos é global, enquanto a de um adulto, não. A globalidade da reação diminui na medida em que vão se dando as progressivas diferenciações na inteligência, processo que se conclui na idade adulta.

Quando um bebê sente fome, ele se sente globalmente ameaçado, tanto quanto você ou eu sentiriamos perdidos nas ruas de alguma favela do RJ, notória pela presença de bandidos. O mesmo quando ele sente sede ou algum tipo qualquer de desconforto. Para ele, não existe diferença entre fome, sede, sono, fralda molhada, agulha na fralda -- para ele, é tudo muito ameaçador. Cada uma dessas situações provoca-lhe a impressão de que sua vida está ameaçada. Daí que quanto mais se retarde atender a um bebê quando ele chora, pior para seu desenvolvimento. O impacto do não atendimento imediato diminui com o aumento de sua idade, do que falarei quando estiver de acordo com a natureza do artigo.

No ser humano adulto ocorrência de uma tal unificação não é a norma, mas coisa episódica. Basta comparar: lembre-se de uma intensa alegria que sentiu quando era criança quando, pelo Natal, ganhou um presente que coincidia com o que você desejava maximamente? Que coisa, pessoa ou situação, hoje em dia, seria capaz de provocar-lhe alegria tão global quanto aquela que sentiu naquele Natal? Difícil responder, não é mesmo?

Isto é assim porque, durante o processo de crescimento, paralelamente ao desenvolvimento corporal (calcificação dos ossos, em princípio mais frágeis e cartilaginosos; fortalecimento muscular; aumento das dimensões do corpo, etc.), vão ocorrendo mutações na inteligência. Primeiro, dá-se a especialização dos sentidos exteriores, como a vista e audição, que vão permitindo o reconhecimento personalizado da figura materna, depois a paterna e em seguida dos demais componentes do círculo familiar; em seguida, anos após, a distinção entre o que é “eu” e o que não é “eu”; posteriormente, dá-se o desenvolvimento do raciocínio baseado na própria estrutura corpórea do sujeito (“operatório concreto”, na linguagem de Piaget) e, de mutação em mutação, atinge-se a capacidade para raciocínios totalmente abstratos, para os quais a matemática educa maximamente.

Quanto maior seja o número de ocorrências de diferenciação da inteligência, menos global vai se tornando a reação a estímulos. Portanto, da vida intra-uterina ao estágio de bebê, deste à condição de criança, desta à de púbere, deste à de adolescente, deste à de adulto, a globalidade da reação da personalidade vai diminuindo. Pois sendo "abstrair" o mesmo que "separar", da infância à idade adulta dá-se o aumento da capacidade para "separar o que interessa" da experiência sem responder a ela de maneira física e mentalmente unificada. Como dizia um antigo colega, um dos primeiros alunos de sua turma de Odontologia, que pegou sua namorada com outro: "Ruim no amor, bom nos estudos".

Compreensível portanto que quanto menos hostil for a conduta com a criança, melhor será para o seu desenvolvimento cognitivo, psicológico e psico-social. Inversamente, quanto mais hostil for a relação que se estabeleça com ela, mais prejudicado estará o desenvolvimento de sua personalidade. E claro também que a comunicação com o indivíduo, quanto mais novo ele seja, dá-se mais por uma questão de presença e do que de discurso. Tanto que não há mal, em termos absolutos, que se usem palavras inadequadas para se dirigir à criança, desde que a atitude seja amorosa. Como uma orientanda, mãe de um único filho, a quem chamava "meu porquinho". Claro que sugeri que ela escolhesse outra substantivo para nomeá-lo em público, caso contrário ele teria desnecessários problemas quando entrasse na fase escolar.

Deve-se ter em mente que a amabilidade ou hostilidade na relação e tratamento com a criança não impedem o desenvolvimento de sua inteligência, esta entendida como a simples capacidade de criar silogismos, de “pensar logicamente”. O que a hostilidade provoca é a emergência, na alma da criança, do desejo por alguma forma de mal. Numa linguagem técnica, pode-se dizer que a falta de atenção amorosa à criança faz com que aquelas, mais dotadas para o pensamento lógico, tenham como fins de suas intenções não o bem do próximo, mas o seu mal. Por isso há indivíduos que, não obstante terem sido agraciados por boas condições sociais, boa educação, etc., enveredam pelo caminho do mal. Sua inteligência (causa eficiente de suas ações) não atua em vista do bem (causa final), mas por causa de algum tipo de ressentimento e desejo de vingança.

Por isso, é sempre melhor, para o indivíduo e para a sociedade em torno, que ele, desde criança, esteja sendo cuidado por quem seja mais amorosamente atencioso com ele, quer se trate do pai ou da mãe.

19 fevereiro 2006

A vocação e o equilíbrio psicológico

(Artigo publicado no Consultório Vocacional da UniverCidade - www.UniverCidade.edu/pop)


Cada pessoa possui facilidade para desenvolver e aprimorar uma força interior que lhe permite manter-se dona de si nas situações desafiantes. Tais forças têm sido ao longo da história conhecidas pelo termo "virtude", uma vez que a raiz virtù desta palavra significa "força".

Os desafios podem dirigir-se à parte irracional à parte racional da pessoa. As virtudes que permitem a vitória nos desafios à parte instintual são a fortaleza e a temperança; à parte racional, prudência e justiça.

Fortaleza é a capacidade para ter coragem quando o desafio põe em risco a vida. O indivíduo, nessas horas, deve ser capaz de atacar o que pode destruí-lo. Quando lhe falta tal virtude, ele simples corre, dá no pé, age de maneira covarde. Temperança é a capacidade para o sujeito não se corromper devido ao interesse por comida, bebida ou sexo. O dinheiro é o meio capaz de viabilizar tais coisas. Por isso os jornalistas e analistas políticos denominaram, com grande sabedoria, aos políticos que demonstram tal tipo de fraqueza de "fisiológicos". Prudência é a capacidade para saber quando agir ou deixar de agir, quando "ir para cima ou afinar". Justiça , o equilíbrio no trato com as coisas alheias, a capacidade para não ficar com o que pertence ao outro e também para dar ao outro o que ao outro pertence.

A vitória sobre os desafios à parte irracional depende da aquisição de certos hábitos ou costumes, os quais resultam da educação que a criança recebe na família e, em prosseguimento, na escola. Em latim, "costume" é denominado mores, daí o nome moral, a qual resulta portanto da educação adequada da parte irracional e afetiva de sua personalidade. Recentemente, sob o nome de inteligência emocional, o psicólogo Daniel Goleman tornou conhecidas as vantagens pessoais, sociais e profissionais da educação desta parte da personalidade. Quando um controle similar deve incidir sobre princípios coletivos e sócio culturais, conservou-se a designação baseada no termo grego ethos, de onde temos "ética". Daí ética significar o respeito por cada pessoa de regras a serem respeitadas por todos. Como para tanto é preciso perceber o mundo à volta como dado objetivo, a parte da personalidade envolvida tem necessariamente de ser a racional.

É papel da educação auxiliar cada indivíduo na aquisição de tais forças interiores ou virtudes.

A vocação, dentre outras coisas, dota a pessoa de facilidade para o desenvolvimento de uma ou várias dessas forças. Assim, há jovens que prometem ser bons administradores porque neles se nota a força do senso de justiça, a capacidade para atribuir a cada um o que lhe pertence, por isso manifestam aptidão para negociar sem que o ceder lhes pareça derrota ou ofensa pessoal e o avançar lhes soe como desejo de humilhar o concorrente. Outros prometem ser bons psicólogos, conselheiros, médicos, etc., já que são inclinados ao controle dos próprios instintos; outros, podem ser pessoas empreendedoras, vendedores, etc., já que não lhes falta coragem nas situações em que a média titubeia; outros, são excelentes pais porque sabem a ora de se impor ou deixar a coisa andar. E assim por diante, em conformidade com a multivariada dotação pessoal das pessoas.

Quanto mais a pessoa, se possível desde jovem, se proponha a tarefas compatíveis com a força (ou virtude) que possui ou que tenha facilidade para adquirir, mais psicologicamente equilibrado viverá sua vida. Menos chances terá de ser no futuro um carreirista fisiológico, um mau médico, um mau administrador, um irresponsável e covarde executivo, em suma, um mau profissional. Em razão do que vale a pena investir desde muito cedo numa boa educação, pois é daí que resultam pessoas psicologicamente equilibradas e profissionais competentes.

07 fevereiro 2006

A Vocação e o Bonsai

Algo que sempre me chamou a atenção, ao longo de mais de três décadas de convívio com japoneses, é seu carinho e paciência para cuidar de árvores e plantas. A criação de bonsai é, dentre as diversas artes japonesas, a que mais me impressionou. Ele resulta do corte criterioso da raiz da árvore.

Não sei dizer se a expressão “criação de bonsai” está correta. De qualquer maneira, digo do que se trata: é o cultivo de árvores pequenas, com uns setenta ou oitenta centímetros de altura, exuberantes, que provocam a impressão de serem imensas em virtude da majestade que exibem. Há arvorezinhas com trinta, quarenta e até mais anos. Só mesmo a combinação de uma grande quantidade de carinho, paciência e delicadeza de espírito para gerar arte assim.
O artista, o cultivador (ou criador) de bonsai, tem de conseguir captar o estilo, a singularidade da árvore, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela árvore pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.

A dificuldade da tarefa é imensa, já que vegetal não fala, mas apenas está lá; não dá nenhuma informação ativa nem sobre si nem sobre nada do meio. O que a árvore é e o que lhe convém tem de ser captado ou deduzido pelo artista que dela cuida.

A comparação do bonsai com a pessoa humana é coisa praticamente imediata. Pois dá para substituir por pessoa a palavra árvore da frase acima: “...captar o estilo, a singularidade da pessoa, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela pessoa pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.”

O bonsai é a árvore exibindo seu grau máximo de beleza, exuberância e majestade, dentro dos pequenos limites que são os seus sessenta ou oitenta centímetros de comprimento. Mas não é também isto que uma criança é? Ou mesmo um adolescente, ou adulto? Quando dizemos que “Fulano é um gigante” não é porque ele meça três, cinco, ou dez metros de altura, mas porque ele manifesta um certo máximo que ele poderia ser – ele manifesta o resultado do fornecimento à sua vocação do aporte cultural adequado, aporte este efetivado sob a forma de carinho e atenção e apoio familiares, adequada instrução escolar e justa recompensa sob a forma de adequada remuneração de seu empenho profissional.

Não dizemos “gigante” ao nos referirmos ao espirituoso ascensorista, ao simpático garçom, ao educado gari, à encantadora e alegre criança, à zelosa vovozinha e a toda miríade de encantos vivos que são cada pessoa de boa vontade que encontramos pelo caminho? Não há termo específico para a elas nos referirmos. Mas indiscutivelmente sentimos em nossa alma atração e encantamento por essas pessoas, do mesmo modo que os “gigantes” pela ciência, arte e demais coisas que alguns vocacionados exibem atraem até eles o apreço das multidões e gerações que se sucedem no tempo. Na presença daqueles outros “gigantes”, em nosso espírito logo surge a idéia de que “se não fosse gari, seria um excelente profissional liberal; quando crescer, continuando assim, será um grande artista; se vovozinha fosse mais jovem e quisesse seguir alguma carreira profissional, seria a melhor mestre de cerimônia do mundo...”, e assim com cada caso.

Nenhum desses valores e virtudes se afirma espontaneamente, sem algum cuidado inteligente, verdade que vale para as arvorezinhas, os bonsai, e também para o ser humano. Pois, de certa maneira, pode-se dizer que o criador de bonsai amplifica a vocação da árvore à beleza que lhe é própria; do mesmo modo que as pessoas e instituições encarregadas da educação do homem amplificam as vocações de cada um, todas diferentes umas das outras, porém, belas, majestosas, encantadoras.

Não há bonsai sem corte de raízes da arvorezinha; não há artista, filósofo ou cientista sem cuidado educacional, sem o “corte das raízes” puramente instintivas do ser humano que, deixadas à própria sorte, aderem ao mal e ao ruim e, com o tempo, banalizam o ser humano.

01 fevereiro 2006

A Vocação e o Vício

(Artigo publicado no Consultório Vocacional da UniverCidade - www.UniverCidade.edu/pop)

Num carro, havia um adesivo onde se lia: "Se fofoca desse dinheiro, minha vizinha seria milionária".

Logo surgiu-me a pergunta: "O que torna uma pessoa fofoqueira?"

A fofoca é a atribuição indevida de relação entre pessoas e fatos. A vizinha vê seu vizinho chegar preocupado e de mau humor; sabe que ele atualmente enfrenta problemas profissionais e tem notícia pelos jornais de que a Receita Federal investiga sonegação fiscal de firmas, e conexiona indevidamente os fatos. Conclui: ele está preocupado pois tem medo de ser apanhado!

Tem-se de reconhecer que o procedimento de sua mente obedece a uma lógica rigorosa. Porém, a lógica não é a vida e há coisas que não se pode conhecer por dedução mas apenas por informação direta. A fofoqueira o é justamente porque deduz, sem base em informações diretas e confiáveis, relações entre pessoas e fatos.

Quem é o profissional cuja mente tem de trabalhar buscando ligação adequada entre pessoas e fatos? O jornalista. É ele que tem por dever de ofício informar ao público as relações que haja entre, por exemplo, as figuras públicas e os fatos do cotidiano. Ainda que o faça seletivamente, deixando de lado o que não tivesse força para comover o público, ainda assim seu procedimento tem de obedecer ao critério apontado.

A fofoqueira pode então ser vista como o resultado do desvio de vocação jornalística. Caso a ela tivesse sido dado o aporte cultural adequado, ao invés de ficar fofocando pelos cantos, teria se tornado competente profissional na arte de informar ao público a respeito do que acontece e afeta a vida das pessoas.

Não sem razão um antigo filósofo disse que "é a mesma a matéria do vício e da virtude". O vício não nega o fato da vocação, mas apenas demonstra o seu desvio.

26 setembro 2005

Vocação e liberdade

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.

O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis -- como a linguagem e as leis escritas e não escritas --, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.




23 setembro 2005

Os vencidos da vida

Uma das difíceis questões, que está na raiz de muitos mal-entendidos, é saber o que é ser vencedor ou derrotado na vida.

Uns acreditam que ser vencedor na vida é possuir muito dinheiro; outros, ter vida tranqüila ainda que sem muito dinheiro; ainda outros, ter firmes e sólidas amizades com as quais seja possível compartilhar reflexões a respeito da vida e do que a ultrapassa. Com ênfase maior ou menor numa dessas posições, distribuem-se as demais opiniões.

Esta questão não é nova e leva sempre à afirmativa de que a realizaçãona vida dá-se quando se respeitam tanto o indivíduo, quanto seu acesso aos bens e serviços que garantam sua existência material. Ou seja, a realização na vida nem é dependente, nem alheia ao dinheiro; não está sob a dependência exclusiva das preferências subjetivas da pessoa, mas também não pode excluí-las. Uma vida realizada é a combinação de todas essas coisas, já que o ser e o ter só se separam na mente e não na realidade concreta do homem.

Se há alguém que muito bem tratou desta questão e a ela forneceu resposta típica de sábio, foi Eça de Queiroz, escritor português nascido em 1845. Ele e 10 amigos fundaram em Coimbra, Portugal, no dia 26 de março de 1889, a sociedade “Os Vencidos da Vida”, sujeitos que segundo Eça “...oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. 11 sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns dos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de Reais vencidos da vida ou Vencidos da vida real ou nacional; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem ações; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras “tão anônimas quanto dedicadas”; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos onze do Braganza [hotel no qual o grupo costumava reunir-se], como na ordem das coisas heróicas se fala dos doze de Inglaterra.”

A finalidade deste grupo era, “...destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares.”
Eça prossegue:

“De resto, o sussurro atônito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho, não é o grupo dos Vencidos – o que é estranho, é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções dum escândalo histórico, o delírio de 11 sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”

O fim declarado dessa sociedade era um: tomar sopas e criticar governo e governos e o que mais vier à baila. Seu fim verdadeiro era outro: dar exemplo moral às gerações futuras. E tal sociedade causou escândalo -- escândalo do mesmo tipo do que despertaria alguém que, reunindo empresários e intelectuais de peso para discutir soluções necessárias e adequadas para todo o país, alegasse estar fazendo isso sem pretender benefícios políticos, econômicos, sociais mas apenas contribuir para a melhoria de nosso mundo para as gerações futuras.

Quem, pois, são os vencedores ou vencidos da vida?

Em resposta à crítica de Pinheiro Chagas, jornalista e escritor, à designação de “Vencidos” no nome da sociedade, já que se tratavam de figuras eminentes da sociedade da época, Eça de Queiroz escreveu um artigo que se tornaria uma das obras primas da literatura portuguesa, ao qual deu o título de “Os vencidos da vida”. Nele consta a resposta clara a tão instigante questão.
Escreveu:

“O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã, é que se chamem Vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflita que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma fagorina e a tesoura para tosquear, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.” [O grifo é meu].

Que o leitor faça a experiência: julgue a própria vida à luz deste critério de vitória na vida. Em resposta, verá diante dos próprios olhos os motivos que levam a gostarem de você os que sinceramente gostam. Perceberá quão forte foi o chamamento de sua vocação e o quanto o atendeu ou não. Perceberá que a medida de sua realização é a medida do quanto realizou, no prosseguimento de sua vida, o que sua vocação o convidava a fazê-lo e hoje lhe constitui motivo de alegria ou de tristeza, conforme tenha organizado sua vida em torno dela ou não.

18 setembro 2005

A vocação à música

- “A música é serva da geometria”, explica Aristóteles. “A arte dos sons”é sua definição.
A arte lida com presenças. O artista, fazendo uso do meio material ou não-material de sua escolha, faz com que o público perceba algum tipo de presença. Este algo que o artista torna presente não é perceptívelpelos sentidos físicos, caso contrário os animais também o perceberiam.Os sentidos externos percebem apenas o meio de que o artista se utiliza; o conteúdo, a arte ali embutida, a presença a ser transmitida: só a inteligência do homem é capaz de percebê-la. O artista povoa o mundo do homem com presenças; coloca lá o que estava ausente e em muitos casos ficaria ausente para sempre, como quando vejo a imagem pintada de um ocaso do sol em terras que nunca fui nem nunca irei.
O músico, artista que é, cria na mente do ouvinte uma presença, a presença de um momento que reúne tanto elementos fíxos e aprendidos quanto outros, situacionais, onde ele age ou padece alguma ação. A chave explicativa de Aristóteles permite compreendê-lo.
A geometria é a ciência da demarcação do espaço.
Ajo a modo de geômetra quando, chegando num lugar, demarco mentalmente o espaço, como quando volto à minha terra natal: vejo um morro, um campanário que se destaca no cume da igreja, a chácara com árvores de copas exuberantes, o riacho, e a leste, norte, sul ou oeste, a casa onde nasci. Caso simplesmente esteja no meio do mato, descubro a direção de nascimento do sol, aponto-lhe a mão direita e a direção leste me é revelada; imediatamente fico sabendo que à esquerda está o oeste, à frente o norte e às minhas costas, a direção sul. É conduta simples, intuitiva, que qualquer um faz sem pensar.
Não posso mudar as cores que percebo, nem a figura dos prédios, nem as dimensões do riacho, pois não posso alterar o que me é dado pela visão –e é com isto que a geometria lida, com o que vejo. Só posso mudar o que vejo caso feche os olhos e permita à minha mente trabalhar sobre as imagens-representações do que vi e que estão retidas na minha memória. De olho aberto, nada posso mudar, e aí está o limite da geometria, que lida com informações visuais.
A música, sendo serva da geometria, também lida com paisagens, com figuras, com prédios, bosques e tudo o mais que nelas haja. Porém, tais paisagens não são dadas aos sentidos do ouvinte mas construídas por ele em resultado do influxo dos sons que sua audição capta. Se ouço algo como a suite orquestral de Bach, não consigo imaginar pessoas se agredindo; se ouço a interpretação de Jimmi Hendrix do hino nacional americano, não consigo deixar de imaginar pessoas se matando. E isto é mesmo assim, mesmo que o intervalo de tempo entre a audição de uma ou outra dessas músicas seja curto. A música me faz ir do céu ao inferno sem que eu saia do lugar.
Mas o céu ou inferno, quando os evoco sob o influxo de músicas,imagino-os como paisagens, onde ocorre alguma ação, a qual pratico ou padeço. Contudo, o céu ou inferno que imagino não é o mesmo que você ou outra pessoa imaginam, já que os construo em minha mente com os elementos que a mim e só a mim pertencem. E nisto difere a música da geometria. A geometria é atividade da mente a partir da visão, passiva em relação aos dados que causam impacto nela; a música é atividade damente a partir da audição, da “visão interior” do homem que, no recesso de sua mente, é ativa e criadora – porque utiliza-se de elementos exclusivamente pertencentes ao sujeito. Quando, ouvindo aquelas suites de Bach, imagino-me caminhando em direção a uma montanha e em seu topo vejo um imponente castelo, este castelo possui matéria, pois castelos são feitos de matéria. Só que esta matéria é a que lhe dou e não aquela que algum europeu conhecedor de castelos sabe quais são. Por isso o“meu” castelo nunca será totalmente igual a nenhum outro que exista.
O ouvinte é ativo na criação das paisagens e situações que a música o estimula a criar. Dependendo das cadências e modulações da música, ele pode criar paisagem compatível com todas as horas do dia e da noite. Ela pode entusiasmá-lo a ponto de fazê-lo imaginar-se acordando e selevantando com o sol, ou fazê-lo imaginar-se sob sol a pino, ou então nos momentos em que irá se preparar para encontrar-se com a amada ou com o momento em que a única coisa que poderá fazer é com ela sonhar.
As paisagens que a música estimula a criar são as que combinam com as diversas horas do dia ou da noite. A beleza ou maior exuberância da paisagem, com todo o dinamismo que ela comporta, dependerá exclusivamente da qualidade da imaginação do ouvinte. Quando ouço as canções infantis que cantava na infância, arranjadas por Villa Lobos, percebo que o que eu nelas enxergava não foi o mesmo que ele enxergou.
Por isso, quando alguém não gosta desta ou daquela música, deste ou daquele tipo de música, por certo é porque não gosta do tipo de paisagem que ela induz sua mente criar.
A vocação à música é portanto o intransmissível dom para agir sobre a mente do ouvinte, a partir da audição, e fazê-la ativamente criar paisagens, compostas com elementos da sua exclusiva realidade interior.

17 setembro 2005

O impacto da vocação

A vocação cria as profissões e as ciências. As profissões e as ciências por sua vez são aspectos da inteligência do homem em ação. São expressões depuradas, a ciência mais do que a profissão, de operações particulares da inteligência. Por isso são seletivas, não admitindo pertencer-lhes toda e qualquer pessoa, todo e qualquer tipo de inteligência.

Se as profissões são todas, sem exceção, práticas, as ciências não. Elas são ou práticas ou teóricas. Por exemplo, a medicina é uma ciência eminentemente prática; a física, fundamentalmente teórica, assim com a matemática, que lhe serve de instrumento.

As ciências práticas valorizam, no seu desenvolvimento, os dados dos sentidos. Daí a imensa compatibilidade das novas tecnologias de observação com a medicina, onde a clínica vai cedendo cada vez mais espaço ao instrumento. As teóricas valorizam o raciocínio, a capacidade do cientista matematizar e criar algoritmos ao mesmo tempo simples e abrangentes. Einsten exemplifica isto, ao expor o seu pensamento sob a fórmula E=mc2. Ainda que sejam necessários árduos estudos, durante vários anos, para compreender o sentido e valor desta fórmula, ela é simples e abrangente.

Analisando os fundamentos de determinada ciência, levando em conta a posição que ocupa entre os extremos – se eminentemente prática ou se puramente teórica – podemos identificar que operações da inteligência ela exige mais intensamente. Assim, é visível que a medicina se funda em provas materiais. A operação da inteligência que tem por função apresentar o dado à consciência é a intuição ou percepção. Logo, a medicina pode ser dita fundamentalmente baseada no caráter intuitivo (ou percepitivo) da inteligência. O mesmo não se pode dizer da Física. Sendo o seu objeto a estrutura dos entes físicos, e não sendo possível vê-los, só é possível deduzí-los. A operação da inteligência responsável pela dedução é a razão. A ciência (ou arte) da guerra ocupa uma posição intermédia, isto é, não se crava exclusivamente na observação nem tão somente na dedução, mas principalmente na estimativa. Quando um chefe militar diz “estimo que tal governo reagirá desta ou daquela maneira ao nosso ataque”, está combinando os precedentes que observou com os raciocínios dedutivos de que é capaz; ou seja, está estimando os dados, o que é papel da estimativa cumprir.

Uma vez compreendida a inteligência própria da ciência, torna-se possível perceber tanto a força de seu benefício como as dificuldades que resultarão do seu predomínio sobre áreas mais amplas da vida do homem.

Um caso digno de nota a respeito deste tema é a dificuldade que hoje confronta grande número de sociedades: se e até que ponto o homem é ou pode estar sendo tratado como meio e não como fim pela que parece ser a “ciência do século XXI”, a Engenharia Genética.

Sem pretender discutir aqui este assunto, um dado importante à discussão é a distinção que existe entre material e objeto da ciência.
O material de que esta ciência faz uso é tomado da Biologia; o objeto, da Física.

A vocação à Biologia é diferente da vocação à Física, na medida em que a primeira é fundamentalmente intuitiva, isto é, procede baseada nas informações dos sentidos; a segunda, procede baseada na articulação de hipóteses com a premissa de base, ou seja, ela é fundamente raciocinativa (a operação do raciocínio não presume a presença atual do objeto, mas apenas de seus esquemas puramente lógicos).

A Engenharia Genética é uma ciência nova, criada por físicos.

As origens desta ciência, conheci-a num dos módulos de Psicologia Social, durante meus primeiros anos de faculdade. Os mais de vinte anos passados misturaram em minha mente informações lidas e ouvidas. As lidas foram principalmente os ensaios contidos no livro “Biologia Social”, de Bruce Wallace, (Ed. da Universidade de São Paulo). ou seus próprios ou adaptações feitas com finalidades pedagógicas, relativos a temas como genética, evolução, raça e biologia das radiações; além destes, textos também de Niels Bohr, físico. As ouvidas foram as que circulavam na época pela boca de professores e palestrantes convidados. Estávamos na década de 80 e esses temas em alta.
Um exemplo claro das mudanças havidas no espaço de algumas décadas é a expressão engenharia genética (com letra minúscula e em modo itálico): era uma, dentre outras, técnica de trabalho do biólogo molecular e sua finalidade estrita era o desenvolvimento de curas de doenças genéticas. Hoje, dizemos Engenharia Genética, com letra maiúscula e sem itálico, significando uma ciência pronta, completa, com objetivos muito mais amplos do que a cura de doenças genéticas – hoje diríamos “cura de doenças genéticas também”.

Essa mudança se processou a partir da segunda metade do séc. XX, quando foi tomando corpo a crença de um físico, Niels Bohr, de que “um princípio de complementação, talvez semelhante àquele necessário para a compreensão da mecânica dos quanta, seria a chave para a verdadeira compreensão da biologia”, nas palavras de Wallace (p.6). Ou seja, assim que passasse a ser aplicado diretamente o método da Física ao material fornecido pela Biologia, esta se tornaria verdadeiramente conhecida.

O grande cientista Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do Nobel de Física em 1922, foi quem levou de Berlim para os Estados Unidos a notícia da descoberta da fissão nuclear e atuou como um dos assessores no laboratório da bomba atômica em Los Alamos.
Ele, como outros físicos, responsáveis pelo desenvolvimento desta nova tecnologia, ficaram profundamente abalados com os resultados de sua aplicação à guerra. Em razão disso, vários cientistas deixaram a Física e migraram para a Biologia, buscando encontrar meios capazes de reverter os efeitos nocivos da radiação sobre os seres vivos, em particular, sobre os seres humanos. O resultado disto foi a transformação da técnica numa ciência, da engenharia genética na Engenharia Genética.

O que chama a atenção nesta ciência é o fato de ser uma aplicação praticamente direta dos métodos da Física não a um novo objeto, mas a um novo material. Se o material de que a Física fez e faz uso é inanimado, o material de que esta nova ciência faz uso é algo vivo. Porém, ela “enxerga” neste material o mesmo que a Física enxergaria: a sua constituição física.

O objeto da Engenharia Genética é a constituição física do material de que o ser vivo é composto. Mesmo que o material de onde surge o homem seja o próprio homem, a natureza mesma desta ciência a torna indiferente a este dado, seja ele fato ou não. A noção de pessoa escapa dos limites da Física, assim como da sua ciência-filha, a Engenharia Genética.

Do acerto ou erro da subordinação das leis que nós homens criarmos a respeito do com que é ou não permitido experimentar, dentro do campo desta ciência, poderá depender significativa parte do futuro da humanidade neste século XXI e quem sabe nos vindouros.

As questões que resultam do crescimento desta ciência são um exemplo forte e atual do impacto da vocação sobre a vida dos homens.

03 setembro 2005

As catástrofes naturais, as humanas, e as vocações

Vi Winston Marsalis, trumpetista, apresentando-se para ajudar a população de New Orleans, terra do jazz, completamente inundada devido ao furacão Katrina.
As boas recordações que as cenas de sua apresentação me provocaram cederam lugar a uma pergunta que não mais me deixou: que tipo de vocação é valorizada pelo povo acostumado a enfrentar catástrofes naturais e pelo acostumado a enfrentar catástrofes humanas?

A resposta que me parece imediata é: quando o adubo que nutre as vocações é a luta contra catástrofe natural, o povo admira e valoriza as vocações que geram indivíduos capazes de resolver problemas reais e concretos; quando a experiência do povo é do padecimento por catástrofes humanas, o povo valoriza as vocações que geram sujeitos enrolões, histriões, falastrões, o que parece ser o caso de nós brasileiros. Pois parecemos acreditar que mais vale ser esperto e enrolão do que bom médico, bom engenheiro, bom alguma coisa.

Tais diferenças me chamaram a atenção de maneira muito aguda nos japoneses, com que convivo.O japonês é um povo que viveu grande parte de sua história tendo de reconstruir tudo, já que o Japão é um conjunto de ilhas que volta e meia balançam e jogam as construções no chão e daí surgiu um povo que sabe quanto custa produzir e vender coisas.

Os povos europeus, bem como os americanos do norte, vivem a realidade de que há épocas do ano em que não poderão nem plantar, nem colher, nem caçar. Aí talvez esteja a razão porque os da terra do jazz certamente conseguirão reconstruir sua cidade e suas vidas mais rápido do que nós brasileiros seríamos capazes. Nunca vivemos, por obra e graça da natureza, a terrível experiência de perder absolutamente tudo, de vermos a cidade em que vivemos totalmente inviabilizada. Algo assim já aconteceu numa ou noutra cidade do Brasil, mas não tinha ninguém lá – quando se criaram as grandes barragens das grandes usinas hidrelétricas. Se isto pode ser chamado de catástrofe, foi catástrofe humana, que parece não excitar o surgimento de vocações científicas e pedagógicas tanto quanto Katrinas e tempestades de neve.

Toda semana analiso dezenas de respostas a um questinário vocacional de minha elaboração, cuja primeira pergunta é “Por que gostam de você?”(*) e em muitos casos fico completamente persuadido que estou cara-a-cara com jovens capazes de adquirir uma cultura superior que o habilite ao exercício de importantes funções administrativas, científicas, e outras, tudo dependendo de que ao longo de suas vidas pessoas ou instituições valorizem suas vocações.

Se ao ver Winston Marsalis, exímio trumpetista, tocando como seus avós e bisavós tocavam – com técnica não européia –, em sinal de respeito a eles, e movido pelo desejo de ajudar seus compatriotas de New Orleans, meu coração se encheu de admiração, no momento seguinte senti-o encher-se de apreensão. É que em seguida vi um um senador petista, vestido num terno caro e exibindo ar sério, propondo mudança na lei de financiamento de campanhas eleitorais, como se a ausência de lei positiva, isto é, escrita e jurada, fosse a a causa da tão desavergonhada conduta de seu partido. Age como criança que na manhã do dia seguinte reclama com sua mãe não a ter obrigado a fazer a lição de casa na noite anterior, ainda que a mãe explicasse “É que você estava tão cansado, meu filho, que nem conseguia ficar de olho aberto!”. Homem pedindo para si e seus pares o que convém a crianças.

Uma coisa me parece certa: as vocações que vicejam e são valorizadas entre os povos cujo sofrimento resulta de evento originado da temível e incontrolada natureza são diferentes das que entre nós surgem e crescem; nós cujos sofrimentos e perdas são causadas pelo próprio homem. Vemos filas enormes, cheias de diplomados em curso superior, habilitando-se a vaga de gari, quando os vocacionados à indústria da diversão e deleite supérfluos ganham fortunas e vão à TV discutir temas para os quais nunca se prepararam e julgando fazer o bem, desencaminham significativa parte da juventude com seus exemplos e conselhos excêntricos.

Nunca é má hora de valorizar as tantas e promissoras vocações ao estudo superior que há no Brasil. Quem sabe a vida de nós brasileiros possa ser mais sensatamente vivida, e sem tanta burocracia seja possível afastar da vida pública a gentalha que encarece tanto a vida de todos alegando estarem lutando por justiça social.

(*) Vide a primeira postagem deste blog, “A pergunta fundamental”, onde menciono a importância capital desta questão.

31 agosto 2005

Só o conhecimento da vocação é suficiente?

O conhecimento da vocação apenas não é suficiente para selecionar tudo em sua vida. Pois deve-se levar em conta, além do sujeito com sua dotação vocacional pessoal, o meio em que ele existe. Não se pode deixar de considerar o sujeito individual, seus relacionamentos, e as circunstâncias dentro das quais ambas essas coisas se dão.

Como características individuais e individualizantes do sujeito, tem-se suas aptidões naturais e adquiridas. Quando essas aptidões vêm do nascimento, costuma-se dar-lhes o nome de “dons”. Por exemplo, o dom para a música, para a pintura ou para a arte em geral. Alguns manifestam possuí-los desde muito cedo, numa época em que não seria razoável admitir alguma “influência do meio”, exceto se considerarmos como “meio” a sua hereditariedade física e psicológica.
Outras aptidões são as adquiridas pela história cultural do sujeito, pelo seu convívio com pessoas e instrumentos culturais diversos, mais afinados ou menos afinados com sua personalidade e dons inatos.

Mas aptidão não é vocação, bem como vocação não é a soma das aptidões inatas e adquiridas, mas o fator integrativo total delas. A vocação é o fator que dota de sentido esses recursos, tanto os que emergem com o sujeito quanto aqueles que sua personalidade vai incorporando ao longo de sua trajetória de vida.

Em resultado deste processo, manifesta-se o sujeito vocacionado a algo. Ao que nele é inato, somou-se aporte cultural adequado.

Porém este mesmo sujeito vive num tempo e num lugar determinados histórica e geograficamente. Sob esta ótica, ele é parte de uma comunidade e os interesses dessa comunidade se imporão sobre ele, sem que isto signifique anulá-lo ou extinguir nele aquilo que ultrapassa o tempo e o lugar. Por exemplo, o dom para a arte, valioso em si mesmo, não desaparece porque a comunidade não se interessa por aquela forma específica de arte. Apenas significa que tal dom não se traduzirá, naquele momento e lugar, num bem desejável e por isso as pessoas não estarão dispostas a pagar por ele. São inúmeros os exemplos de casos assim. Alguns tão famosos com Van Gogh, pintor que viveu miseravelmente mas cujas obras, passados alguns anos, adquiriram preços exorbitantes.

Por maior que seja o valor “em si” do dom individual da pessoa, ou mesmo de sua vocação, não se pode deixar de levar em conta os fatores sociais envolventes, as condições políticas e econômicas do lugar e época e assim por diante, que certamente contribuirão para o êxito maior ou menor da obra resultante ou mesmo a impedirão.

Pelo fato de tais fatores não serem previsíveis, mas apenas explicáveis a posteriori, dá-se-lhes o nome de “sorte”. Assim, além de conhecer qual seja a própria vocação, de modo que a partir daí seja possível fazer esforços convergentes numa certa direção, é necessário um pouco de “sorte”, isto é, que a comunidade valorize o bem ou serviço decorrente de tal vocação.

Um exemplo histórico impressionante disso é o famoso filósofo da Grécia Antiga, Aristóteles. Como não era grego, não era um “cidadão” e por isso não podia sequer discutir os problemas da cidade; na verdade, como se diz na gíria, era o último que falava e o primeiro que apanhava. Sua obra desapareceu por uns seiscentos anos e quando reapareceu, as traduções não eram boas, não faziam juz a seu verdadeiro conteúdo. Muitos anos depois, foram feitas traduções adequadas, a partir de quando ela pôde ir sendo apreciada no seu justo valor. O intervalo de tempo, entre sua morte e uma adequada tradução de sua obra, foi de mais ou menos uns dezesseis ou dezessete séculos.

Este eloqüente exemplo mostra que, às vezes, o valor da vocação “em si” pouco pesa quanto ao rumo dos acontecimentos ou no sentido de beneficiar aquele dela dotado social e economicamente.

Assim, é possível dizer com grande dose de razão que o valor fundamental do conhecimento de qual seja a própria vocação é que ele permite regramento dos esforços da pessoa. Em primeiro lugar porque tal conhecimento permite fazer convergir os esforços para uma vida com sentido; em segundo lugar, porque não é possível ter o domínio do meio circundante, pois vivemos dentro dele e ele nos contém e não o contrário. E por mais tecnologizado esteja o homem ou a comunidade, mesmo assim não é possível controlar os fatores externos que envolvem a vida. Sempre surge um imprevisto Tsunami, um Katrina, que tudo arrasa. Ou mesmo um simples e pequeno acidente, como o que vitimou Alexandre o Grande: tomou banho num rio, pegou uma doença e morreu no prazo de poucos dias. O grande homem, conquistador, guerreiro, e que ainda por cima tornou conhecidas universalmente as escrituras dos judeus, permitindo a grande parte da humanidade compreender que há um só e único Deus, foi morto em poucos dias por uma gripe ou algo semelhante. Quem diria? E um Roberto Jefferson surgir de repente mudando os destinos de um país?...Quem diria?....

24 agosto 2005

Os personagens públicos e suas vocações

A vocação específica da pessoa fica evidente em dois momentos extremos: quando ela a nada está obrigada ou quando as circunstâncias a obrigam fortemente a fazer alguma coisa. Nessas duas condições, o coração, a vontade e o entendimento se unem e dão base para a ação do espírito, que então escolhe certas alternativas e e rejeita outras. É portanto nessas horas que se age verdadeiramente em conformidade com sua vocação.

Alguns personagens cujos perfis cognitivos e vocacionais eu trouxe a público, com base em dados que observei e informações que coletei deles -- Marcos Valério, Delúbio dos Santos, José Dirceu -- estão na obrigação de fazer algo para livrar a própria pele. É quando então agirão fundados em suas vocações e terão suas idéias melhores e mais eficientes, as quais poderão até não funcionar, pois isso dependeria de muito mais coisas. Contudo, as soluções que propuserem devem ser vistas como expressão de sua máxima inteligência e unidade pessoal, isto é, deverão ser vistas como exteriorizações de suas vocações. Podem mostrar pouca inteligência e certamente mostraram baixa unidade pessoal, mas é o máximo que esses indivíduos atingirão por estarem com o coração, a vontade e o entendimento todos voltados para este momento de desespero. Observe então os contornos da vocação de cada um deles, personagens cujas ações e omissões pesam tanto sobre nossas vidas.

Pode estar certo que assim fazendo, você conseguirá enxergar com grande clareza porque o momento do sufoco é privilegiado para a descoberta da vocação. Aplique então a compreensão que obtiver sobre este maravilhoso tema da vocação e de sua descoberta ao próprio caso. Esta atitude reflexiva fortalecerá enormemente seu espírito.

13 agosto 2005

Vocação e vida (II)

No artigo “Vocação e vida”, esclareci que vocação é a unidade do intelecto, vontade e afetividade. No caso do japonesinho Roberto, observa-se que informática não responde à exigência de unidade de sua alma. Informática é algo que ele sabe, entende, mas de que não gosta a ponto de deixar outras coisas por ela e também não é algo com que queira ficar envolvido de maneira exclusiva e permanente. Seria como se apenas uma terça parte de sua alma estivesse vinculada ao assunto.

Isto não quer dizer que informática seja dispensável para ele. Apenas significa que, como assunto principal de sua vida ou profissão, seria muito insatisfatória. Como recurso complementar, totalmente satisfatório.

Tanto que quando lhe pareceu óbvio para sua vida que o caminho era a veterinária, imaginou-se criando um sistema capaz de fornecer informações a respeito de pet shop, cadastro de profissionais da área, preços de serviços etc.

Informática no seu caso nada mais é que uma aptidão. E aptidão é instrumento possível da vocação e não a vocação mesma.

A vocação e a relação com seu objeto

Antes de existir a internet, houve um menino de 12 anos, Roberto, que criou em casa, sozinho, uma BBS – Bulletin Board System – ferramenta de comunicação via modem, chegando a ter uns 50 usuários. Feito notável para a época, e acredito que o seria também hoje em dia.

Aos 17 anos, veio conversar comigo. Ia mal na escola, a ponto de estar quase repetindo o ano e não parecia se interessar por nada. Pensei comigo mesmo: seu caminho só pode ser a informática. Era engano. Nas conversas, soube por ele que o que mais o havia alegrado na vida tinha sido tratar de um cãozinho doente. Numas férias, havia viajado para a casa de um de seus tios, veterinário de cidade do interior. Imitando os procedimentos do tio, tratou do cãozinho, que se curou. Ficou orgulhoso consigo mesmo. Por causa da BBS, seus pais e amigos valorizavam sua facilidade com computadores. Contudo, não foi aquilo que mexeu com seu coração e sim a veterinária.
Uma vez relembrado, o episódio do cãozinho que curou não lhe saiu mais da cabeça. Sua mãe me perguntou que pozinho mágico usei, já que ele passou a mostrar-se interessado nos assuntos da escola, estava entusiasmado e dizia que ia fazer vestibular pra veterinária. Fez. Passou. Atualmente já deve ter-se formado.
Nas conversas com ele, comparei a criação da BBS e a cura do cãozinho. Mostrei que em ambos os casos ele agia impondo-se sobre o “objeto”. A diferença é que o primeiro, computador e softwares e demais coisas, não informava a respeito de si mesmo ou dele, Roberto. Já o cãozinho, informava sobre si mesmo e sobre ele. Tanto que quando o via abanava o rabo.
Depois de distinguir o resultado final de uma coisa e outra, Roberto disse que não ligava para informática porque por mais sensacional fosse o que fizesse, não sentia nem gratidão nem amizade por parte do computador ou para com ele. No caso de animais, sentia essas coisas e isto lhe dava tamanha alegria que nem sabia descrever.
Isso me faz lembrar Konrad Lorenz, que é autor do livro "A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso” da editora Brasiliense. No livro ele descreve o objeto preferencial de sua vocação: “As minhas sensações de alegria por ‘possuir’ alguma coisa têm por objeto, quase exclusivamente, animais vivos. Quando acontece num aquário que, por mero acaso e sem participação minha, um grupo grande de peixes cresce e se desenvolve, isso me enche de uma profunda satisfação, mesmo que se trate de alguma espécie muito comum e que não tenha para mim nenhum interesse.” (p.99)

K. Lorenz se alegra ao presenciar o espetáculo da multiplicação da vida; Roberto, ao presenciar o restauro da saúde do que está vivo.

12 agosto 2005

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (II)

Toda atividade possui um fim próprio. Alguns desses fins são tão úteis em termos práticos que as pessoas se interessam muito por eles. Em conseqüência disso, quem consegue atuar para que se atinja aquele fim adquire prestígio social e outras vantagens. Vai também adquirindo conhecimento sobre os melhores procedimentos para que se chegue àquele fim e esse conhecimento se acumula e é transmitido para outras pessoas. A repetição desses procedimentos desencadeia o surgimento da profissão, cuja finalidade será a manutenção da oferta de meios de se chegar aos fins que interessam as pessoas – saúde, consumo, educação etc.

O nome “profissão” significa ato, declaração ou confissão pública. Portanto, ao aderir a uma profissão, a pessoa está fazendo uma declaração pública de que orientará seus esforços para a produção daquele produto e não de outro.
Como é preciso estar vivo para poder agir, querer, desejar etc., é natural que as profissões que fornecem bens e serviços necessários à vida material mantenham prestígio, mesmo que variável, ao longo do tempo. É o caso, por exemplo, da medicina, da engenharia e do direito.

A reflexão a respeito do fim de cada atividade é de imenso valor. Muito dos descontentamentos, desequilíbrios e desajustamentos de toda ordem, físicos, sociais, psicológicos, não raro cravam suas raízes na combinação de dois elementos positivos que não combinam: de um lado, a vocação do sujeito, a qual é positiva em si mesma; de outro, a inalterável finalidade da profissão que escolheu. Quando ambos não combinam, surgem os problemas.

Suponham, por exemplo, um sujeito com vocação artística, festeiro, com facilidade para agitar o ambiente. Possuir essa capacidade é coisa positiva. Imagine-o agora trabalhando num banco, ambiente adequado aos vocacionados à contadoria, pessoas discretas, não raro falam baixo e costumam não gostar de pessoas barulhentas e agitadas. O conflito é inevitável. Conheço um diretor de Departamento de Esportes que odeia esportes, barulho e tem o maior nojo de roupa suada. Fui com ele uma vez ao aeroporto recepcionar uma equipe de atletas. Lá estavam parentes e amigos, com faixas, cantando, fazendo a maior festa. Ele ficava tentando se esconder atrás de pilastras, com vergonha de tudo que estava acontecendo, olhando para os lados como que movido pela necessidade de dar satisfação aos demais presentes e dizer-lhes que nada do que acontecia era por sua culpa.

Quem não conhece Ney Matogrosso? Filho de pai militar, lá pelos 17 anos foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília. Mas isto não durou muito, pois logo ele passou a fazer recreação com crianças. Por certo não seria possível para ele fazer carreira em laboratório, por melhor que lhe pagassem. Gilberto Gil é administrador de empresas por formação o que é impossível imaginar quando o vemos, mesmo ministro, dançando e cantando num encontro com autoridades internacionais. Que dizer do presidente Lula? Sua vocação é evidentemente de tipo artística. Uma coisa é o presidente que já foi artista e outra o artista que finge ser presidente. Ronald Reagan foi um presidente americano que no passado tinha sido artista, mas tinha tanta vocação para a política que foi um dos mais importantes presidentes americanos recentes. E o presidente Lula? Bem, é o que nós brasileiros estamos podendo verificar atualmente, on line: para ser presidente, não basta ser artista.

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (I)

Um dos tópicos que abordo nos cursos que dou sobre vocação é a finalidade da atividade.

O fim de qualquer atividade pode ser comparado ao ponto final de ônibus. Não se espera que alguém, ao entrar num ônibus, fique tentando impor ao motorista itinerário diferente do que já esteja previamente estabelecido. Se quiser isso, deve tomar um táxi ou ir no seu próprio carro. Não é papel do ônibus levar o sujeito aonde ele quiser. O ônibus o deixará num dos locais de parada previamente estabelecidos. Quando alguém entra numa profissão, é como se estivesse tomando um ônibus. Sua autonomia para mudar alguma coisa é pequena, como é no caso de um motorista conhecido ou que conhece bem o trajeto e que pára fora do ponto quando você pede. Mas o motorista de ônibus tem o fiscal que o vigia e pode fazê-lo perder o emprego. Cada profissional tem uma pequena margem de manobra para mudar os rumos de sua profissão e organizações, como os conselhos profissionais, que o fiscalizam e mantêm ou não sua autorização para trabalhar.

Assim como há pessoas que vivem se enganando e pegando ônibus errado, também é comum a escolher ofícios bem distantes da própria vocação. A razão disso? “Foi o que pude conseguir”, muitos dizem, sem se dar conta que a escolha foi feita, às vezes, há mais de dez anos.

07 agosto 2005

O possível efeito (des)educacional das CPIs

O conhecimento da vocação resulta muito mais de observar o que a pessoa realmente faz do que de escutar o que ela fala. Por quê? Porque a relação entre a vocação da pessoa e suas intenções declaradas é a mesma que há entre o exemplo e o conselho. Se um pai diz para o filho que ele deve ser responsável e dedicado com seus deveres escolares e ao mesmo tempo chega em casa mal humorado, falando mal do seu emprego, o que efetivamente está ensinando a seu filho é o contrário do que pretende, já que o exemplo é mais forte que o conselho.
Assistindo às CPIs, exibidas em todo o país com recordes de audiência, me pergunto: o que realmente está sendo ensinado ao povo? Contrariamente às que podem ser as intenções dos parlamentares mais sérios delas encarregados, o que pode estar sendo ensinado é que a melhor coisa, a mais decisiva e importante, é ter dinheiro, muito dinheiro; que quem possui muito dinheiro está livre de cadeia, ou se vai preso, é por pouco tempo, não importando a força e a quantidade das provas que tenha contra si.
O cidadão comum, que freqüenta os mercados, os feirões e demais lugares em busca de preços menores, está acostumado a ver a polícia jogar no camburão pivetes que furtam coisas de pouco valor. Porém, não vê o mesmo acontecer com pessoas endinheiradas, cujos advogados interpõem recursos que dilatam enormemente o tempo entre a demonstração da culpa e a pena, ficando a forte impressão de que no fim tudo acaba em pizza. São exibidas provas ou fortes indícios de algum tipo de crime, mas não a punição que certamente ocorreria caso o acusado fosse gente pobre, confirmando que tendo dinheiro pra distribuir, o resto se ajeita.

02 agosto 2005

A vocação em época de crise

Não é a primeira vez que os brasileiros nos sentimos como ilhas cercadas por mar de lama. Pudera, os causadores do escândalo atual são os que mais usaram, de maneira vazia, expressões como “honestidade”, “justiça”, “ética” e outras cujo sentido e valor nunca captaram.
Mas, absorvido o impacto do que para muitos é decepção, já que não contavam com algo assim, a vida voltará à rotina. Então, cada pessoa estará às voltas com o cuidado de sua própria vida. Cada pessoa terá de refletir a respeito do que está exclusivamente em suas mãos poder fazer para vencer os desafios que a vida lhe coloca. É quando ressurgirá o tema da vocação com sua permanente importância.
Mesmo agora, quando tudo parece muito confuso e todos com cargo público parecem culpados, certamente a solução honesta que houver para a crise só poderá ser proposta por quem for vocacionado a bem pensar justamente em situações de crise. Talvez não seja o meu caso nem o seu. Mas toda e qualquer coisa que existe é alimento para algum tipo de vocação. Deus providenciou isso e deixou à disposição do homem no momento em que o fez criatura capaz de tudo compreender, ainda que não o tempo todo e ao mesmo tempo.

31 julho 2005

As profissões e o dinheiro

A relação de qualquer profissão com o dinheiro não é direta. Se uma proporciona mais ganhos num determinado momento, é porque o que ela produz é visto pelas pessoas como sendo algo de valor. Caso contrário, todo profissional de alguma dita profissão “rentável” estaria muito bem de vida, o que a experiência demonstra que não acontece. Há advogados ricos e pobres, assim como médicos, jogadores, comerciantes...
A razão disso? Toda profissão tem uma finalidade própria, a qual não é, na maioria dos casos, ganhar dinheiro.

O rosto e a competência

Só vejo meu rosto quando me olho no espelho. Do mesmo modo, só fico sabendo de minhas próprias positividades em resultado do convívio com as pessoas. Aquilo que parece tão comum em mim, tão familiar, tão fácil e corriqueiro, nem sempre é visto assim pelo outro.

Por isso, é pouco comum alguém levar em conta o que tem em si de vocacional, isto é, o que gosta de fazer e faz bem. Ao escolher alguma carreira profissional, é comum pensar: “tenho de fazer algo que dê dinheiro”. Porém, não é a profissão que ganha dinheiro, mas o profissional a partir dela. E a melhor profissão para cada um é a que lhe valorize mais a vocação, pois desempenhando uma atividade vocacionada, fica fácil adaptá-la às mais diferentes finalidades, inclusive a de ganhar dinheiro.

30 julho 2005

O que responde à vocação da pessoa desperta-lhe o amor

Uma pessoa, uma arte, um partido ou seja lá o que for que manifeste qualidades do “objeto preferencial” da vocação de alguém pode exercer poderosa força sobre ele, sobre seu coração e mente. É como se cada pessoa possuisse um sistema que, como o GPS, fosse capaz de localizar tais objetos: basta o objeto que tem apelo à sua vocação, o objeto realizável, surgir no seu radar que o sistema foca nele.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.

Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.

Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.

O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.

Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.

As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 3

Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”

Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.

Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.

Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.

Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.

Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças...” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.