Toda atividade possui um fim próprio. Alguns desses fins são tão úteis em termos práticos que as pessoas se interessam muito por eles. Em conseqüência disso, quem consegue atuar para que se atinja aquele fim adquire prestígio social e outras vantagens. Vai também adquirindo conhecimento sobre os melhores procedimentos para que se chegue àquele fim e esse conhecimento se acumula e é transmitido para outras pessoas. A repetição desses procedimentos desencadeia o surgimento da profissão, cuja finalidade será a manutenção da oferta de meios de se chegar aos fins que interessam as pessoas – saúde, consumo, educação etc.
O nome “profissão” significa ato, declaração ou confissão pública. Portanto, ao aderir a uma profissão, a pessoa está fazendo uma declaração pública de que orientará seus esforços para a produção daquele produto e não de outro.
Como é preciso estar vivo para poder agir, querer, desejar etc., é natural que as profissões que fornecem bens e serviços necessários à vida material mantenham prestígio, mesmo que variável, ao longo do tempo. É o caso, por exemplo, da medicina, da engenharia e do direito.
A reflexão a respeito do fim de cada atividade é de imenso valor. Muito dos descontentamentos, desequilíbrios e desajustamentos de toda ordem, físicos, sociais, psicológicos, não raro cravam suas raízes na combinação de dois elementos positivos que não combinam: de um lado, a vocação do sujeito, a qual é positiva em si mesma; de outro, a inalterável finalidade da profissão que escolheu. Quando ambos não combinam, surgem os problemas.
Suponham, por exemplo, um sujeito com vocação artística, festeiro, com facilidade para agitar o ambiente. Possuir essa capacidade é coisa positiva. Imagine-o agora trabalhando num banco, ambiente adequado aos vocacionados à contadoria, pessoas discretas, não raro falam baixo e costumam não gostar de pessoas barulhentas e agitadas. O conflito é inevitável. Conheço um diretor de Departamento de Esportes que odeia esportes, barulho e tem o maior nojo de roupa suada. Fui com ele uma vez ao aeroporto recepcionar uma equipe de atletas. Lá estavam parentes e amigos, com faixas, cantando, fazendo a maior festa. Ele ficava tentando se esconder atrás de pilastras, com vergonha de tudo que estava acontecendo, olhando para os lados como que movido pela necessidade de dar satisfação aos demais presentes e dizer-lhes que nada do que acontecia era por sua culpa.
Quem não conhece Ney Matogrosso? Filho de pai militar, lá pelos 17 anos foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília. Mas isto não durou muito, pois logo ele passou a fazer recreação com crianças. Por certo não seria possível para ele fazer carreira em laboratório, por melhor que lhe pagassem. Gilberto Gil é administrador de empresas por formação o que é impossível imaginar quando o vemos, mesmo ministro, dançando e cantando num encontro com autoridades internacionais. Que dizer do presidente Lula? Sua vocação é evidentemente de tipo artística. Uma coisa é o presidente que já foi artista e outra o artista que finge ser presidente. Ronald Reagan foi um presidente americano que no passado tinha sido artista, mas tinha tanta vocação para a política que foi um dos mais importantes presidentes americanos recentes. E o presidente Lula? Bem, é o que nós brasileiros estamos podendo verificar atualmente, on line: para ser presidente, não basta ser artista.
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