Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”
Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.
Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.
Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.
Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.
Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças...” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.
Nenhum comentário:
Postar um comentário