A profissão é efeito da vocação e não o contrário. As profissões surgem e desaparecem. Cada profissão enquadra a inteligência dos que a ela se dedicam, já que nem tudo que uma pessoa tem a oferecer combina com o objetivo da profissão. Por isso, como toda pessoa tem mais a oferecer à vida do que qualquer profissão exige, há sempre uma significativa cota de frustração em toda profissão.
Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos -- gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade -- como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.
Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.
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