26 julho 2005

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 2

Há coisas que só existem no mundo dos homens. A arte por exemplo.

Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.

O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.

Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.

O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.

No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.

Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.

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