21 julho 2005

A vocação espiritual do homem - II

Nem sempre é fácil tirar conseqüências práticas de textos como o "A vocação espiritual do homem", que escrevi há uns dias . Por isso, retomo o assunto: quando digo “espiritual”, quero dizer “o que é próprio do homem, o que é exclusivo da inteligência do homem”.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.

O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.

A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.

A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.

Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.

Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.

Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto...Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Seu blog é muito bom, Joel. Você é um homem muito espirituoso. És um homem que tem como a sua vocação, ajudar os outros a descobrirem o seu caminho, a sua verdade; ou seja, a sua vocação espiritual... Parabéns, meu amigo. Deus abençoe tão grande homem, com tão bela missão. Um abração,

Joel disse...

Li também o seu blog, Sidney. É a sua cara, os textos com a coragem e o otimismo pela vida que se vê nele. Coragem porque você trata dos assuntos que trata sem estar preso ao "politicamente correto", camisa-de-força da inteligência. Otimismo porque quem quer que o conheça não se esquece do tom alegre de sua voz, mesmo quando o assunto é preocupante.