30 julho 2005

O que responde à vocação da pessoa desperta-lhe o amor

Uma pessoa, uma arte, um partido ou seja lá o que for que manifeste qualidades do “objeto preferencial” da vocação de alguém pode exercer poderosa força sobre ele, sobre seu coração e mente. É como se cada pessoa possuisse um sistema que, como o GPS, fosse capaz de localizar tais objetos: basta o objeto que tem apelo à sua vocação, o objeto realizável, surgir no seu radar que o sistema foca nele.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.

Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.

Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.

O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.

Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.

As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.

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