01 fevereiro 2006

A Vocação e o Vício

(Artigo publicado no Consultório Vocacional da UniverCidade - www.UniverCidade.edu/pop)

Num carro, havia um adesivo onde se lia: "Se fofoca desse dinheiro, minha vizinha seria milionária".

Logo surgiu-me a pergunta: "O que torna uma pessoa fofoqueira?"

A fofoca é a atribuição indevida de relação entre pessoas e fatos. A vizinha vê seu vizinho chegar preocupado e de mau humor; sabe que ele atualmente enfrenta problemas profissionais e tem notícia pelos jornais de que a Receita Federal investiga sonegação fiscal de firmas, e conexiona indevidamente os fatos. Conclui: ele está preocupado pois tem medo de ser apanhado!

Tem-se de reconhecer que o procedimento de sua mente obedece a uma lógica rigorosa. Porém, a lógica não é a vida e há coisas que não se pode conhecer por dedução mas apenas por informação direta. A fofoqueira o é justamente porque deduz, sem base em informações diretas e confiáveis, relações entre pessoas e fatos.

Quem é o profissional cuja mente tem de trabalhar buscando ligação adequada entre pessoas e fatos? O jornalista. É ele que tem por dever de ofício informar ao público as relações que haja entre, por exemplo, as figuras públicas e os fatos do cotidiano. Ainda que o faça seletivamente, deixando de lado o que não tivesse força para comover o público, ainda assim seu procedimento tem de obedecer ao critério apontado.

A fofoqueira pode então ser vista como o resultado do desvio de vocação jornalística. Caso a ela tivesse sido dado o aporte cultural adequado, ao invés de ficar fofocando pelos cantos, teria se tornado competente profissional na arte de informar ao público a respeito do que acontece e afeta a vida das pessoas.

Não sem razão um antigo filósofo disse que "é a mesma a matéria do vício e da virtude". O vício não nega o fato da vocação, mas apenas demonstra o seu desvio.

Nenhum comentário: