04 julho 2005

A vocação espiritual do homem

Tudo que existe pode ser desejado ou amado por alguém.

Se amo uma pessoa, quero estar com ela, vê-la, ouvi-la, sempre. Se estou apaixonado, sinto que quero e posso entendê-la e até me sinto fazendo isso, se por acaso ela também gostar de mim. Mas não são apenas as pessoas que podem ser objetos de nosso amor. O homem é capaz de sentir-se do mesmo jeito por qualquer outra coisa.

O homem é a única criatura viva capaz de viver em qualquer lugar do planeta. Formigas, cães, gatos, pulgas, baratas, pernilongos: só os encontramos em determinados lugares, mas os homens -- eles estão em todos os lugares. É porque ele é capaz de se adaptar ou se acostumar com qualquer situação e de alterar qualquer ambiente e adaptá-lo a seus interesses.

Quando gosto muito de algo, quero mostrar para os outros para que também gostem. Mas você gosta de outras coisas, meu vizinho de outras ainda e assim sucessivamente por toda a humanidade de modo que tudo que existe é passível de ser amado, compreendido, sentido.

Ver é coisa mais ampla do que pegar. Minhas mãos permitem que eu pegue isto ou aquilo, mas minha visão permite que eu veja isto, mais aquilo, mais aquilo outro...Não há limite para a quantidade de coisas que eu posso ver.
De todos os órgãos dos sentidos, a vista é o que ocupa a posição mais elevada. Por isso é comparada ao que há mais nobre na inteligência do homem: a capacidade de ver, de enxergar coisas. Como para amar é preciso conhecer e para conhecer mais, ver mais, a criatura que mais consiga ver é a que mais encontra o que amar. Por isso o homem é capaz de amar mais do que qualquer outra criatura e também de amar toda e qualquer coisa.

Quando o sujeito vê algo espetacular, ele quer mostrar esta mesma coisa pra todo mundo. Este é um dos sentidos do “mito da caverna” de Platão: vivendo num mundo de penumbra e sombras, um homem escapa e vê o mundo exterior, a luz do sol e as cores, os movimentos e tudo o mais que existe fora da caverna. Volta para tentar mostrar aos outros que também podem ver o que ele viu. E mesmo que arrisque sua vida para convencê-los, não desiste do empreendimento.

Pela visão, posso “tocar” o que há de mais imaterial..

Entende-se vocação, tradicionalmente, como “chamamento”. “Algo” chama o homem para este ou aquele esquema de vida. Daí surgem os heróis de vários tipos e surgem contentamentos e descontentamento de toda espécie. Sendo o homem como é, capaz de enxergar mais do que qualquer outra criatura – mais distante até do que a águia, por exemplo, pois se esta enxerga longe, o homem enxerga mais longe ainda com suas lunetas, telescópios e microscópios – é natural colocar-se as eternas perguntas “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Em busca da resposta, em todas as épocas, o homem criou ciências; ciências que em épocas seguintes serão vistas como superstições, já que as mais atuais, são sentidas como mais perfeitas do que as anteriores. Nessa caminhada de ciência e tecnologia, a vida do homem se descomplica em alguns setores e se complica em outros.

Qual a condição na qual qualquer pessoa pode viver a experiência de esquecer-se de si mesmo, concentrar-se em algo que lhe é exterior e bem servir ao próximo? É justamente a vida profissional.

Quando você procura um profissional, não está interessado nos problemas pessoais que ele tenha, mas quer sua atenção, seu serviço, sua competência. E os terá, caso ele seja vocacionado para o que faz, já que a vocação é justamente a capacidade que o homem possui para relacionar-se com a vida e imitar, nesta relação, o desapego que ocorre sempre que se está diante do que mais ama, quer e é apto a entender.

Quanto mais compatível com a vocação pessoal é a profissão escolhida, mais se fundem o amor e o trabalho, uma coisa passando a existir por causa da outra. Pois todo trabalho é feito em virtude do bem de alguma outra pessoa, do mesmo modo que se estou apaixonado, todos os meus pensamentos são para a minha amada.

É compreensível, então, porque pensamos logo em profissão, quando falamos em vocação. E mais, passamos logo a considerar que é coisa de interesse para o adolescente apenas. Porque presume-se que o adulto, já instalado em sua condição profissional, escolheu algo que ele é capaz de entender, de querer e até de amar. Tanto é que consegue cuidar, com seu trabalho, de mais pessoas do que aquelas que é capaz de vir a conhecer durante toda sua vida.

Tudo isso só é possível ao homem. E o termo que se usa para manifestar algo só presente no homem e em nenhuma outra criatura é “espírito”. Por isso, é correto dizer que é através da sua vocação pessoal que cada pessoa é capaz de realizar a verdadeira vocação espiritual do homem.

Um comentário:

Haroldo Falcão disse...

Olá, JOel.

Parabéns pelo site. Certamente suas orientações vão ajudar a muitos. Ainda mais agora, que você enriqueceu seus escritos com aspectos teóricos da vocação.

Vou recomenda-lo aos meus.

Um abraço,

Haroldo Falcão.