O conhecimento da vocação resulta muito mais de observar o que a pessoa realmente faz do que de escutar o que ela fala. Por quê? Porque a relação entre a vocação da pessoa e suas intenções declaradas é a mesma que há entre o exemplo e o conselho. Se um pai diz para o filho que ele deve ser responsável e dedicado com seus deveres escolares e ao mesmo tempo chega em casa mal humorado, falando mal do seu emprego, o que efetivamente está ensinando a seu filho é o contrário do que pretende, já que o exemplo é mais forte que o conselho.
Assistindo às CPIs, exibidas em todo o país com recordes de audiência, me pergunto: o que realmente está sendo ensinado ao povo? Contrariamente às que podem ser as intenções dos parlamentares mais sérios delas encarregados, o que pode estar sendo ensinado é que a melhor coisa, a mais decisiva e importante, é ter dinheiro, muito dinheiro; que quem possui muito dinheiro está livre de cadeia, ou se vai preso, é por pouco tempo, não importando a força e a quantidade das provas que tenha contra si.
O cidadão comum, que freqüenta os mercados, os feirões e demais lugares em busca de preços menores, está acostumado a ver a polícia jogar no camburão pivetes que furtam coisas de pouco valor. Porém, não vê o mesmo acontecer com pessoas endinheiradas, cujos advogados interpõem recursos que dilatam enormemente o tempo entre a demonstração da culpa e a pena, ficando a forte impressão de que no fim tudo acaba em pizza. São exibidas provas ou fortes indícios de algum tipo de crime, mas não a punição que certamente ocorreria caso o acusado fosse gente pobre, confirmando que tendo dinheiro pra distribuir, o resto se ajeita.
4 comentários:
Em termos filosóficos, não é possível apreender a unidade da coisa. A unidade, característica do que é inteligível, precisa para nós ter um começo, um meio e um fim. O que nós vemos é um contínuo de escândalos - como alguém que assiste da janela de um carro em alta velocidade mas nada consegue apreender.
Concordo plenamente com a sua colocação.
Haroldo,
você expressou a questão muito bem. De fato, cada parte do público vê um trecho da questão e apenas poucas pessoas todo o conjunto. É difícil supor que algo assim não obedeça à lei de Murphy, isto é, deixe de dar errado no fim.
E suponho que alguns percebam mais ou menos segundo sua vocação para este campo dos acontecimetos, certo ?
Segundo sua vocação e na proporção do aporte cultural adequado que a ela tenha dado no curso de sua vida. É necessário sempre considerar que a vocação apenas não capacita suficientemente o sujeito. É necessário que este lhe dê expressão adequada, o que só é possível a partir da posse de instrumentos adequados. Para isto serve a cultura sob toda e qualquer de suas formas.
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